Bia Saltarelli, Blog

Refém

Refém. Presa em um labirinto tortuoso e minha última chance de escape é escrever sobre nós. Mas essa intensidade de sentimentos ainda é tão maior do que minha capacidade de traduzir em palavras. Talvez porque sentimentos assim não possam ser transpostos para a linguagem dos humanos comuns.
Porque escrever o que se sente é doloroso e contar essa história é sentir de novo. Sentir tudo aquilo que eu tenho evitado na última semana. É rasgar-me inteira sem anestesias.
Porque suas palavras entraram em mim como punhal abrindo a pele em carne viva. Como seringa contaminada não descartada. Dor lancinante.
Doença sem remédio para uma mulher que não foi talhada para amores possíveis.
Porque mesmo depois daquele nosso adeus eu acreditei que ainda poderíamos ser.
Mas se nessa noite eu ainda estou aqui, sozinha, rabiscando essas linhas tortas é porque algo ainda não está em seu lugar. Porque se não é você que pode acalmar esses desejos inquietos eu ainda estou em cárcere. Cárcere privado. Liberdade provisória. Desejo que continua sem resposta.

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Bia Saltarelli, Blog

Amor, palavra-escrava

Enquanto eles amam, eu desvio. Enquanto eles leem, eu rio.
Não me chame de poeta. Eu, que nunca pensei nas métricas.
Que sou do verso, da vida e do espírito livre.
Minha única prisão é o viver sentindo em excesso.
Não sou escritora, não tenho autonomia. Não sou criativa nem extrovertida.
Eu sou só instrumento de escrita. Refém da palavra.
Refém daquilo que há de mais intenso e humano nessa vida. Aquilo que eles ainda nem sabem o que é.
Escrava do amor. Escrava de amar.
Desejo único de me doar.
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Bia Saltarelli, Blog

Beatriz – 31

Não por acaso fui nomeada Beatriz. Eu, que não passo de uma espécie de musa dantesca. Um tipo de Rita Hayworth piorada. E tenho o inexorável destino daquela do amor impossível; que só pode chegar ao paraíso depois de passar pelo inferno da paixão. Aquela que o Chico cantou e pediu para ser levado para sempre. Aquela que só pode ser amada por algo da ordem da ilusão. Porque para amar uma verdadeira Beatriz é necessário um desprendimento de alma. Um desprendimento que eles não conseguem ter. Porque querem tomar posse. E isso não é amor. E eu, que me apaixonei por Nabokov e Nelson Rodrigues antes dos 17, aos 31 ainda não aprendi a deixar me amar.
Eu, que sobrevivi aos 30, idade na qual Sylvia Plath deu fim à própria vida, e que para nunca me esquecer de mim, marquei as costelas com aquela citação. Aquela que diz sobre querer importante sendo diferente, enquanto as outras são todas iguais. Como gado marcado a ferro e fogo. Porque tenho essa alma de bicho solto. Porque antes de ser sua, sou minha. Porque até hoje eu só sei a ser a mulher da minha vida. Porque assim como Tieta também não sou mulher feita da costela de Adão.
Porque pode me ler e até me levar pra cama. Se apaixonar pela Bia. Mas para amar…amar uma Beatriz…amar uma Beatriz pede coragem. Coragem para amar só pelo amor e para ser o que se é. Porque é assim que ela é. E é assim que eu sou.
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Bia Saltarelli, Blog

Carne

Eu não falo grego mas ainda assim não me entende. Não são apenas 140 caracteres, mas essas conversas digitadas não me dizem mais nada. Porque nem mesmo mil palavras iriam me acalmar o desejo.
Porque a minha pele ainda se arrepia ao lembrar do toque e aquele cheiro ficou impregnado em cada parte do meu corpo. E posso sentir o sangue latejando, enquanto a carne clama intensamente essa presença, ao mesmo tempo em que escuto o Chico cantando: “meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”.
Porque algo em mim teima em te dizer sim. Em querer ainda mais. Em te querer mais.

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