Bia Saltarelli, Blog

Apenas sonho

Eu não sei quando eu o perdi. Ou se em algum momento nos perdemos sem saber.
E tanto tempo longe, tanto tempo sem nos saber e agora ele chegou nos meus sonhos. Chegou do mesmo jeito como um dia entrou na minha vida. De fininho, como quem não quer nada e acabou ficando. E bagunçando tudo.
E sonhar com ele trouxe de volta aquele emaranhado de emoções para as quais ainda não encontrei explicação. Sentimentos que eu nem lembrava de um dia ter sentido. Apenas no sonho. Em outro tempo, talvez outra vida.  Talvez algo muito longe do real e mais próximo da ilusão.
Mas longe do sonho eu e ele é como ser imigrante ilegal. Como não ter casa, não ter dono. Como não saber de nada; nem de mim. Como quando as minhas emoções mal digeridas viram gastrite e o estômago lateja. Como quando eu percebo que as angústias que me matam são as mesmas que me fazem viva. É como ouvir Desafinado. Ou como no outro dia, quando eu fui ao cinema sozinha assistir Ponte Aérea e saí da sala com os olhos borrados. Como aquela vez que te encontrei na rua e você parecia ser só um estranho. Ou como quando o Chico canta: “e tantas águas rolaram e quantos homens me amaram bem mais e melhor que você.”

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Contradição

Ele me curte. Me chama de linda. Diz que, no mundo, não existe mulher como eu. Vai embora.
Mas ele volta. Me chama de louca. De descabida. De largada.
Me sinto puramente mulher. Menina. Sem lugar. Sem dono porque nunca soube ser de ninguém mesmo. E também porque me querem, mas não são capazes de sustentar tanto querer. Tanto desejo. Tanta vontade. Tanto tesão.
E aí me vejo sozinha. Mais uma vez. E sozinha eu não os culpo. Porque sei que esse fardo é só meu.
Educada em colégio católico mas neta – com orgulho – de mulher de pulso firme e filha da mãe que conseguiu unir o amor mais puro ao caráter mais sólido.
Mulher de contradições mas mulher que se entrega. De corpo, alma, coração e tudo mais que vier. Tudo mais que ele quiser.

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Simplificando

Ele me chama de complicada mas adora criar caso. Parece que seu único vício é tentar me censurar. E se eu provoco é pra ele me olhar. Para se perturbar. É roupa, é cabelo, é jeito de dançar como se não houvesse amanhã. É aroma de baunilha. É lingerie nova. É tecido de seda que toca o corpo. Mas é só para ele. É me soltar um pouco além para parecer bem. É parecer gostosa para não me julgarem insegura. É me entregar inteira. Mas é tudo só para ele. Porque só o amor dele me alimenta. E só ele me faz querer mais. Porque eu sou sim, meio complicada. Mas com ele eu só quero simplificar.

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