Bia Saltarelli, Blog

Ímpar

Ele me quer presa mas eu quero liberdade. Ele anda com os pés firmes na terra e eu só penso em voar. Ele quer calmaria e eu sou só desassossego. Ele quer mulher tom pastel e eu sou vermelho sangue. Ele quer aquela que pinta as unhas de Renda e eu prefiro Gabriela. Ele quer acertar e eu erro o tempo inteiro. Ele é conformado e eu insaciável. Ele quer viver na superfície e eu preciso me afogar. Ele quer formar um par mas descobri que sou ímpar.

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Bia Saltarelli, Blog

São Paulo

São Paulo é uma cidade de extremos. É glamour e miséria. É estar preso na própria liberdade. É se confundir e se resolver. É solidão e multidão. Solidão acompanhada e multidão solitária. É tão agitada e intensa que me acalma. São Paulo é ser errada no lugar certo. É busca por algo para além de si. É viver dentro e fora dos limites. É ter sonhos e viver frustrações. É jurar lealdade enquanto se sente traído. É ser mulher e menina. Menina como Lolita de Nabokov e mulher. Mulher da firma. Mulher de família e do baixo Augusta. Mulher buscando por algo quando passeia entre os bares da Vida Madalena e disposta a devorar o mundo enquanto anda apressadamente pela Paulista. É pressa de viver quando sobe as escadas do metrô. É possibilidade. É alagamento das ruas e transbordamento de alma. São Paulo é mulher que perde a linha enquanto vive dentro do contorno.
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Bia Saltarelli, Blog

Nua

Eu chorei. Chorei quando ele foi embora daquele jeito covarde. Sem explicações, sem adeus. E, de repente foi ser feliz com outra pessoa. E eu apenas desejei que ele fosse feliz. E chorei porque nós não fazíamos mais sentido. Aliás, nem sei se algum dia fizemos ou se o amor dele era uma mera vaidade. Eu não chorei lágrimas, mas agora choro palavras. Porque escrevendo eu arranco os sentimentos mais intensos e profundos. Porque amor na minha vida eu nunca tive. E nunca fui o amor de alguém. Nunca passei de desejos, vaidades, caprichos. E nunca eles puderam ser mais do que isso pra mim também. Mas amor dentro de mim existe. Minha essência é puro amor. E é tudo que minha alma busca. E de tanto amor nunca pude amar. Porque eles não querem nada comigo. Quando eu desnudo o corpo eles o desejam. Quando desnudo a alma eles simplesmente vão embora como se dentro de mim existisse algum tipo de monstro. Como se se entregar inteira fosse algum tipo de crime.

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Bia Saltarelli, Blog

Resposta

Apaga as luzes, fecha as janelas e deita na cama. Se cobre como quem se esconde. Tenta ficar tão quieta que não possa ouvir a própria respiração, que não possa sentir coisa alguma. Só busca um lugar no qual se aconchegue como num ventre de mãe. Mas o coração não deixa. Palpita e dispara. O mundo sacode dentro do seu peito e ela sente uma necessidade de algo que ainda não sabe. Uma sede que água não mata. Quase consegue explicar, como se tivesse uma palavra na ponta da língua. Procura livros na estante como quem busca socorro e folheia páginas buscando desesperadamente por respostas. Mas ela sabe que quanto mais perguntas menos respostas. E de repente ela se pergunta em voz alta, na vã esperança de uma única solução: será que um dia vai saber viver como as outras? Com o coração mais leve como o de um bicho domesticado?
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