Bia Saltarelli, Blog

Nua

Eu chorei. Chorei quando ele foi embora daquele jeito covarde. Sem explicações, sem adeus. E, de repente foi ser feliz com outra pessoa. E eu apenas desejei que ele fosse feliz. E chorei porque nós não fazíamos mais sentido. Aliás, nem sei se algum dia fizemos ou se o amor dele era uma mera vaidade. Eu não chorei lágrimas, mas agora choro palavras. Porque escrevendo eu arranco os sentimentos mais intensos e profundos. Porque amor na minha vida eu nunca tive. E nunca fui o amor de alguém. Nunca passei de desejos, vaidades, caprichos. E nunca eles puderam ser mais do que isso pra mim também. Mas amor dentro de mim existe. Minha essência é puro amor. E é tudo que minha alma busca. E de tanto amor nunca pude amar. Porque eles não querem nada comigo. Quando eu desnudo o corpo eles o desejam. Quando desnudo a alma eles simplesmente vão embora como se dentro de mim existisse algum tipo de monstro. Como se se entregar inteira fosse algum tipo de crime.

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Bia Saltarelli, Blog

Resposta

Apaga as luzes, fecha as janelas e deita na cama. Se cobre como quem se esconde. Tenta ficar tão quieta que não possa ouvir a própria respiração, que não possa sentir coisa alguma. Só busca um lugar no qual se aconchegue como num ventre de mãe. Mas o coração não deixa. Palpita e dispara. O mundo sacode dentro do seu peito e ela sente uma necessidade de algo que ainda não sabe. Uma sede que água não mata. Quase consegue explicar, como se tivesse uma palavra na ponta da língua. Procura livros na estante como quem busca socorro e folheia páginas buscando desesperadamente por respostas. Mas ela sabe que quanto mais perguntas menos respostas. E de repente ela se pergunta em voz alta, na vã esperança de uma única solução: será que um dia vai saber viver como as outras? Com o coração mais leve como o de um bicho domesticado?
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Bia Saltarelli, Blog

Estrangeira

Vivo como estrangeira no meu próprio mundo. Esse mundo de superfícies não tem lugar para mim. Eu, que preciso de profundidade. De abismos e precipícios. De riscos, repentes e rompantes. De desnudamento e entrega. Eu, que vivo em carne viva e gosto de abrir as feridas. Eu, que sinto até sangrar e transbordar. Mas, enquanto eu mergulho no mais fundo, eles ainda preferem a beira-mar.
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Bia Saltarelli, Blog

De repente 30

Aos 30 anos eu ainda almejo uma barriga negativa e uma coleção de sapatos mas me preocupo muito mais em aumentar minha biblioteca. Aos 30 anos eu quero estar com os cabelos lindos e loiros mas um bad hair day deixa de ter tanta importância na vida. Aos 30 anos meu coração se quebrou tantas vezes que eu simplesmente perdi o medo de amar. Aos 30 anos eu realmente prefiro estar sozinha a “estar junto apenas por estar”. Aos 30 anos eu descobri que um relacionamento não precisa ser perfeito mas precisa ser verdadeiro. Aos 30 anos me sinto mais atraída por um cara que tem aquela barriguinha de chopp, mas com o qual você consegue conversar horas sem ver o tempo passar, do que por aquele que vive na academia, toma whey protein e come barrinha de cereal. Aos 30 anos as angústias e dúvidas continuam latentes, mas a gente entende que é através delas que a gente evolui e a vida segue o fluxo. Aos 30 anos a gente percebe que, se soubermos aproveitar as lições, as dores e decepções nos tornam pessoas melhores.  Aos 30 anos eu me preocupo em pagar as contas mas ainda sonho acordada e anoto planos no caderno. Aos 30 anos eu ainda sonho com uma casa grande com sótão, mas também seria feliz conseguindo pagar o aluguel de um apartamento pequeno. Aos 30 anos eu sei que ainda vou “chegar lá”, mas me preocupo principalmente com o caminho a ser trilhado. Aos 30 anos eu ainda busco algo especial. Aos 30 anos, enquanto o mundo me pede mais calma, e eu só me entrego pela alma.

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