Domingo

Domingo. Lá fora gritos de torcedores e música alta. Pareço mesmo viver à parte porque alheia à todos os estímulos, só a frase daquele filme sobre Emily Dickinson que assisti há 2 semanas, ainda insiste em martelar na minha cabeça, como se estivesse introjetada no corpo: “nós, que nascemos privados de um tipo específico de amor, lidamos melhor com a falta”. Todas as feridas e frustrações me aparecem como num turbilhão. As lágrimas de hoje borram a maquiagem de ontem. Você não me disse nada. Nem me deu a mão pra me ajudar a cuidar de mim. E ainda assim eu não te peço nada. Agora eu só quero ir embora.

Outono

Outono que mais parece verão. A cabeça dilata enquanto ainda insisto na besteira de me entregar até os poros. Ingênua, talvez. Bato recordes de ingestão de ibuprofeno e mais uma vez me vejo largada, sem lugar nessa vida. Cansei de ser assim. Sem dono. Cansei de me ver mulher. Mulher e sozinha. Já passei dos 30 e quero ser mãe. Quero filho, família. Porto seguro. Quero alguém pra descobrir. Escrever e amar de novo. Amar e escrever de novo. Cansei de não ser de ninguém. Quero amor, quero espera. Quero briga. Quero sexo. Nunca vou ser sua bonequinha impecável e “pronta pro uso”, mas ainda arrisco desejar a rotina de amar e ser amada pelo mesmo homem todos os dias.

Peso

Sempre achei que o pior seria nos ver morrer. Acabamos enterrados, soterrados a cada respiração, com uma nova camada de terra. A cada dia mais distantes. Mas o pior é te ver e perceber que somos melhores longe um do outro. Você parece mais solto, pronto pra caminhar sozinho de novo e eu tirei todo o peso daquele amor das costas. O corpo magro denuncia alguma fragilidade. E eu sei. Sei que algo em mim muda quando te vejo. E que o “acaso” ainda me leva pra você. E hoje eu também sei que teu jeito de olhar pra mim continua o mesmo. Talvez no dia em que eu não tiver mais certeza desse olhar eu não mude mais. Talvez nesse dia algo em mim só me diga que tudo acabou de vez e que devo apenas seguir em frente.

Desencarne

Volto àquele café onde estivemos juntos pela última vez. Sento na mesma mesa e escolho o mesmo vinho. Apenas como quem busca as últimas palavras em um velório. Só que desta vez o cadáver é o meu. Não sei quantas vezes morri e reencarnei desde aquela quarta-feira de novembro que mais parecia um pesadelo do qual eu ainda insistia em não acordar, mas sei que agora acabou. Pela primeira vez desde que você chegou eu deixei de acreditar. Tudo que me ocupa o peito é um vazio. Simplesmente não me importo mais. Tua falta já não sangra. O membro do amor foi amputado, arrancado como num parto à fórceps. Agora só aquela frase de Tsvetáieva insiste em martelar na minha cabeça, sem me deixar fugir, como que me levando de volta ao meu lugar: “De alguma maneira arrasto para o amor alguma coisa que faz com que ele não se realize, se disperse, se desfaça”.