Feridas

Reviro as gavetas e encontro. Aquela calcinha amarela. Puxo sem dó e com violência rasgo um por um os fios da renda como se esse ato pudesse também arrancar do meu coração a tua presença que insiste em permanecer. Porque cansei de dormir e acordar dia após dia suportando essa dor ridícula como a de feridas profundas e infeccionadas, cheias de secreções e pus à flor da pele.
É que você não sabe, mas enquanto jorram essas palavras sinto cada dor, cada fisgada emocional como quem arranca espinho por espinho e deixa a pele em carne viva. O peito aperta a cada respiração e o estômago sangra e dói tanto quanto a alma. A cabeça revira e as veias dilatam cada vez que tento entender porque e ainda me questiono e suplico a não sei quem por uma resposta para algo que não consigo deixar pra lá como eles se conformaram a fazer. É que a minha maneira de amar é deturpada para os dias atuais. Eu ainda preciso de viver mais, de sentir mais do que simplesmente ligar o piloto automático e deixar acontecer.

Vício

Ando pelos mesmos lugares em que estivemos e sinto um aperto como se o ar de repente ficasse rarefeito. Como se eu precisasse de um cilindro de oxigênio ou enfiar dois dedos na garganta para vomitar. Para expurgar esse veneno que insiste em permanecer aqui dentro. É que meu corpo ainda é despudorado com o sentir e insiste em te desejar todos os dias.
Você sabe que eu poderia acordar cada dia na cama de um, sendo despida e desejada por outros tantos. Até melhores que você. Mas seria uma violência contra mim. Porque em toda parte só o que me sobra são resquícios desse amor. Ridículo. Barato. Irracional. Imoral.
E nessa tentativa de arrancar essa coisa nociva que queima, lateja e sufoca, esgoto todos os recursos: volto à terrível compulsão por açúcar. Que só me faz sentir enjoada e culpada. Me odeio por quase um segundo. Mas aprendi a perdoar certas fraquezas.
Ando pelas ruas da cidade como se procurasse algo, mas confesso que tenho medo de te encontrar por acaso. E ver que aquele olhar que me desmanchava já não é mais o mesmo.
Tomo um porre. Não bebo vinho, que meu fígado tolera bem, mas escolho a vingança perfeita: vodca. Só que meu corpo se recusa. E o resultado é só um dia inteiro jogada no chão do banheiro com uma enxaqueca implacável.
Digo que vou juntar dinheiro, que são tempos de crise, mas o cartão de crédito é usado constantemente. Compro calcinhas. Pretas porque ainda é minha cor preferida. Mas agora elas ficam guardadas na gaveta.
Consulto horóscopo – Lua e Vênus em Capricórnio é tragédia consumada no amor – e jogo tarot na esperança de um sinal, uma resposta. Imploro a Deus. Ouço músicas. Blues, Jazz e MPB. Depois apelo para as cafonas. E nem mesmo os livros conseguem me tirar dessa.
Escrevo. Sinto que, pelo menos por um momento, posso respirar novamente, que as batidas do coração voltam à pulsação regular, que o sangue circula normalmente pelas veias. Pelo menos até que comece tudo outra vez.

Cafona/ Sentimental

04:28 de terça-feira. As insônias se tornaram agora um martírio para quem passa noites inteiras sozinha, de um lado para outro da cama. Pele arrepiada, calafrios e a vontade única do teu abraço, do teu corpo aconchegado no meu. De estar enroscada nos braços que eu achei que nunca me largariam e hoje nem mais me abraçam. Das mãos que não mais me tocam. Daquele beijo que a minha boca nunca mais experimentou.
Passo dias anestesiada, em uma aparente calma que sei que não é minha. Logo eu, que ainda teimo em ser tão escancarada com o sentir. Que só sei fazer do amor um escândalo. Eu, que me coloquei inteira para você. E que expus meu coração sem nenhum pudor. E agora você me ataca tão ferozmente com o teu silêncio. Me atinge em cheio o peito aberto, minha alma já tão machucada.
“And now that you took that part/ that used to be my heart/ All of me, why not take all of me?/ Can’t you see I’m a mess without you?”, canta Sinatra ao fundo, zombando do meu desespero cafona – afinal para que se entregar tanto em tempos modernos? – enquanto eu entendo que talvez o amor não me seja possível. E que a mim só cabem mesmo as cicatrizes e a poesia.

Sentimental

04:28 from tuesday. The insomnias became a martyrdom for who spend whole nights alone in bed. Chills, sensible skin and the only desire of your embrace. To be curled up in arms that I thought never leave me and not hug me anymore. The hands that not touch me more. That kiss my lips never experienced more.
Spend all days numbed, in an apparent calm that I know isn’t mine. Just me, still insist on being so wide open with feelings. I know only making love a scandal. I, who gave myself whole for you. And gave my heart so shamelessly. And now you attacking me so fiercely with your silence. You hit my open chest, my soul already so hurt.
“And now that you took that part / that used to be my heart / All of me, why not take all of me? / Can’t you see I’m a mess without you?”, sings Sinatra, laughing my sentimental despair – why so romantic in modern times? -, while I understand that maybe love isn’t for me. And for me only fit the scars and poetry.

Bonita/ Beautiful

Os fios de cabelo cheios de luzes cobrem parte das costas, mas também da alma. Não deixam transparecer certas fragilidades por entre as fendas. O corpo bem delineado é alvo frequente de desejos. Eles me dizem linda, mas no fim sempre me deixam sozinha. Todos eles. Me largam numa esquina qualquer, me apontam o dedo. Me jogam na cara cada fraqueza e me denunciam todas as cicatrizes. Cada uma dessas dores é como uma tatuagem onde a pele é mais fina. Onde a alma mais dói. Me jogo no chão do quarto e enquanto tomo taças de vinho tinto leio Ana Cristina César: “Estou bonita que é um desperdício”. Porque aqui a beleza ainda é castigo pra carne de mulher. Enquanto eles comem cru porque tem medo do amor mais difícil.


Beautiful

The highlights of long hair cover part of back, but also the soul. Don’t show the weakness through the slits. The hot body is a frequent target of desires. They call me beautiful, but in the end they always leave me alone. All of them. They leave me in any street corner and accuse me. They throw up all faults in my face and denounce me all the scars. Each of these pains is like a tattoo on thinner skin. Where the soul hurts most. And now I’m on the bedroom floor and while I drink red wine read Ana Cristina César*: “I am beautiful and it is a waste.**” Because here beauty is just punishment for flesh of woman. While they eat crude because have too afraid for the hardest love.
*Brazilian Writer

**Free translation