Carta aberta

Madrugada de sábado, 02:25.
Manhã de segunda. Chuva. Trânsito. Aproveito para ouvir um podcast de business no caminho.
Rotina. Checo os emails. Respondo meia dúzia deles e subo até o 22º andar. Para respirar. Para tentar enxergar outras possibilidades. Na esperança de que o vento leve embora pelo menos um pouco de toda essa intensidade. Enquanto meus sentidos ainda te buscam: vejo meus olhos procurando o ponto do horizonte mais próximo à você.
Vou até a cozinha. Café preto: “black coffee, love’s a hand me down brew“. Como tudo pode estar tão certo e, ao mesmo tempo tão fora de lugar. Tormento. Tempestade. Furacão. Tão longe de encontrar calmaria enquanto estiver tão distante.
A vida quer dar um jeito: “entra nos eixos”. Encontra um caminho. Tudo parece organizado. Engaveto desejos ardentes a cada instante, mas você deveria saber que, por dentro, ainda sou só desordem.
Uma máscara por dia. Uma nova tentativa: de aceitar enquanto tento, pela última vez, escrever algo intenso o suficiente para te despertar. Para te pedir coragem para o sentir. Para buscar, de alguma forma, reacender aquele desejo. Para, de qualquer jeito, esgotar os resquícios desse amor falido que já não tem fôlego para respirar.
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Ridículo

Como podes ler o que te escrevo e ainda ficar indiferente? E não vir correndo para esse abraço? Para possuir esse corpo que ainda é tão seu?
Como consegues passar todo esse tempo fugindo? Correndo para longe do que mais desejas e fingindo estar bem? Tentas, mas não me enganas.
Sim. És cruel comigo desde aquela noite, mas sabes que és ainda mais cruel contigo.
Foges de mim porque não te suportas.
Meu bem, ainda não sabes que é mais difícil fingir do que enfrentar todo o ridículo do amor?

Desassossego

Eu sei que não é nada mais que ridículo saber que tua falta me dilacera como quem carrega sob os ombros todo o pesar da humanidade.
Ainda que me afaste ao máximo e tente seguir, os caminhos e lembranças me levam de volta.
O que mais dói é não saber. Já sei que agora bebe café, mas ainda não sei se toma o café da manhã.
A beleza é só castigo quando outros me desejam. É de amor que ainda estou faminta. Cada toque que não o seu não passa de um martírio. Mas eu deixo. Me deixo levar por outras carícias e até finjo gostar. Visto a máscara. Faço uso de todos os artifícios para tentar enganar esse amor, mas meu corpo grita por todo esse vazio.
Há uma mulher que gostaria de se libertar e esquecer, mas ainda há aquela outra que só sossegaria em teus braços. Que esqueceria toda loucura, que se libertaria de todos os anseios se pudesse apenas ser tua.

Avesso

Passei 1 ano juntando os cacos. Revirando essa história do avesso. Tentando recolher os destroços de mim mesma.
Meu corpo queima a cada noite. Eu ainda sinto saudades demais. E você ainda se afasta demais.
Parece que foi ontem que esteve em meus braços. Talvez você não saiba, mas, naquela noite, apesar da devassidão, eu não passava de uma menina te pedindo pra ficar.
02:42. Entro no chuveiro. Esfrego a pele com força para tentar remover o que ainda ficou impregnado desse amor. Como quem busca extrair todo veneno.
Nada adianta. Tudo o que consigo são manchas vermelhas e um ardor violento que só me leva de volta pra você.
Choro de desejo e te chamo com todos os sentidos. Com a carne. Com a volúpia do corpo. Com sentimentos puros e anseios intensos.
Viro do avesso. Até tento, mas é por você que eu ainda arrepio. Enquanto prefere fingir felicidade com outra.