Bonita/ Beautiful

Os fios de cabelo cheios de luzes cobrem parte das costas, mas também da alma. Não deixam transparecer certas fragilidades por entre as fendas. O corpo bem delineado é alvo frequente de desejos. Eles me dizem linda, mas no fim sempre me deixam sozinha. Todos eles. Me largam numa esquina qualquer, me apontam o dedo. Me jogam na cara cada fraqueza e me denunciam todas as cicatrizes. Cada uma dessas dores é como uma tatuagem onde a pele é mais fina. Onde a alma mais dói. Nessa solidão me jogo no chão do quarto e enquanto tomo taças de vinho tinto leio Ana Cristina César: “Estou bonita que é um desperdício”. Porque aqui a beleza ainda é castigo pra carne de mulher. Enquanto eles comem cru porque tem preguiça do amor mais difícil.

Beautiful

The highlights of long hair cover part of back, but also the soul. Don’t show the weakness through the slits. The hot body is a frequent target of desires. They call me beautiful, but in the end they always leave me alone. All of them. They leave me in any street corner and accuse me. They throw up all faults in my face and denounce me all the scars. Each of these pains is like a tattoo on thinner skin. Where the soul hurts most. And now, in this loneliness, I’m on the bedroom floor and while I drink red wine read Ana Cristina César*: “I am beautiful and it is a waste.**” Because here beauty is just punishment for flesh of woman. While they eat crude because has too laziness for the hardest love.
*Brazilian Writer

**Free translation

 

Cacos/ Pieces

Madrugada e um certo desespero de não escrever mais. Livros espalhados, caneta no punho e caderno de rascunhos parecem não significar nada mais além de uma visão turva. Abro uma garrafa de vinho e forço o saca-rolhas como quem ainda detem um fio de esperança. Afinal, quem precisa de uma overdose de barbitúricos quando a angústia mata lenta e dolorosamente a alma de quem sente demais? A humanidade me sufoca. O mundo me engole. Do fast food aos amores instantâneos. Just in time. É só deletar, jogar fora e dar as costas. O tempo da delicadeza já se foi. Não tenho espaço. Não tenho socorro nem solução. Sou só. Inteira minha e ainda um pouco dele. Mulher aos pedaços. Cacos de amor dilacerado.

Pieces

Lonely night and a desperation not to write more. Scattered books, pen in fist and writing pads not seem to mean nothing but a blurred vision. Open a bottle of wine and force the corkscrew as those who still have hope. After all, who needs an overdose of barbiturates when anguish kills slowly the soul of who feel too much? Humanity suffocates me. The world swallows me. From fast food to instant love. Just in time. Delete is enough, throw away and give back. The time of kindness is gone. I have no place. I have no help or solution. Just myself. Full of me and even a bit of him. Woman in pieces. Pieces of torn love.

Sangrando III/ Bleeding III

Aqui nessa cidade te busco pelas ruas mesmo sabendo que você não está. E ainda assim tudo me lembra nós. Todo concreto reflete a dureza desses sentimentos e pareço te encontrar a cada esquina. Aqui nessa cidade pela primeira vez a solidão me dói e sinto a dor do amor que mais sangra. Me fecho no quarto de hotel e me jogo na cama enquanto ouço a voz de Sinatra ao fundo: “I’ve tried so not to give in. I’ve said to myself this affair never gonna swing so well.” Tomo goles de vinho tinto buscando engolir rápido tudo aquilo que minha alma ainda teima em sentir. Mas essa avalanche de sensações é forte demais para meu coração tão bobo. Saio para caminhar pelas ruas da cidade que há 10 anos teimo em chamar de minha. As luzes da avenida, que sempre me inspiraram tanto, agora só fazem acender essa dor de paixão insensata. A multidão parece não me ver e eu ando em passos rápidos, nessa pressa eterna de viver, tentando me esquivar dessa minha solidão acompanhada. O vento forte e frio dessas ruas não me afeta porque tua ferocidade ainda é a única que me faz falta.

Bleeding III

Here in this city I seek you for these streets even though you aren’t here. And everything reminds me us. All this concrete jungle show me the hardness of these feelings and I look like you find at every turn. Here in this city, for the first time, loneliness it hurts me and I feel the pain of love that most bleeds. I lock myself in the hotel room and throw myself on the bed while I hear the voice of Sinatra in the background: “I’ve tried so not to give in I’ve said to myself this affair never gonna swing so well” I take sips of red wine seeking quick swallow everything that my soul still insists on feeling. But this mess of feelings is too strong for my fool heart. I go out to walk the city streets which 10 years ago I insist call mine. The lights of avenue, that always inspired me, now show me this pain of senseless passion. The people doesn’t seem to see me and I walk in hurried steps in this hurry to live, trying to dodge my loneliness. The strong and cold wind for these streets don’t affect me because your fierceness is still one that I miss.

Sangrando II/ Bleeding II

Por aqui solidão e lágrimas. Justo eu, que busco ser diferente agora sou só clichês de um coração partido. Porque logo você, que me escreve aquelas palavras, dizendo que homem também sangra, não consegue perceber que só consegue me fazer sangrar. E nada me deixou tão surpresa quanto você. Você, que parecia tão diferente e que agora se parece com todos eles. Você, com suas palavras. Com seus olhares. Com seus livros, textos e filosofia. E o que você sabe de amor? Pecado, eu diria, é um homem matar assim, a sangue frio, o amor de uma mulher. Pecado é fazer uma mulher se entregar. E depois jogar fora. Pecado é fazer uma mulher sentir o coração na boca e o peito aberto. E depois a deixar sozinha. Dilacerada, com marcas de um amor que não sai da pele. Porque nessa vida, pecado mesmo, é fazer a alma de uma mulher sangrar.

Bleeding II

Here loneliness and tears. Just me, that try to be so different, now I’m just clichés of a broken heart. Because you who writes me those words, saying man also bleeds, can not realize that makes me bleed all the time. And no one made me as surprised as you. You, who looked so different and now looks like all of them. You, with your sweet words. With your eyes. With your books, texts, and philosophy. And what do you know about love? Sin, I say, is a man kill, in cold blood, the love of a woman. Sin is make a woman give all herself. And then throw away. Sin is to make a woman feel the heart in mouth and chest open. And then to leave her alone. Torn, with marks of love in skin. Because in this life, the worst evil is to make the soul of a woman bleed.