Cura

Outono costumava ser minha estação favorita.
Devorava o mundo; tão faminta de amor. Ataques compulsivos tentando preencher o vazio da tua falta. Regurgitava sentimentos indigestos na mesma proporção dos frangalhos que me deixava. Didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?/ Honey, you know I did!/ (just) take another little piece of my heart.”
Como restos de comida que se joga a um cachorro sem dono. Dama e Vagabundo. Na nossa história nunca me deixou ser a dama.
Estava nas suas mãos. O pouco que tinha te dava, quase nada me sobrava.
Meu corpo e alma queimavam a todo instante; transtornados pela ignorância do desejo. Mas suas mãos não passavam de membro imobilizado. Como osso quebrado. Tudo era sempre pela metade. O nosso laço era frouxo.
Jazz. Aqui jaz um romance. Notas tocadas como pus saindo de machucado. Um corte lento e profundo. Um amor que acaba como um acorde interrompido. Sem improviso.
Dolorido.
Você tentava tapar os buracos enquanto eu insistia em jogar álcool na ferida aberta. A cada noite meu corpo sujo e dilacerado.
Eu era tempestade; você? garoa.
Tentava abrir as portas; batia, arrombava, fazia escândalo.
Eu era céu aberto, azul de outono; você? neblina.
Eu insistia na gente. Quanto menos você me dava mais eu tentava.
Implorava. Desejava com todos os poros do corpo. Mendigava amor e recebia esmolas.
Capricho.
Doença.
Dependência.

Recaída.
Quarentena.
Abstinência.

Libertação.
Cura.

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