Noite de domingo

Noite de domingo. Em uma última tentativa ela liga. O telefone chama, mas ninguém atende. Ela envia uma mensagem com um poema sobre São Paulo – escrito há mais de 2 anos  – e um trecho de livro como numa última tentativa: “porque teriam encoberto suas idiossincrasias”. Mas todas as idiossincrasias dela eram praticamente escancaradas. Ainda que ele a considerasse uma casa fechada com tetra chave e trinco na porta. É que é assim que a avó dela sempre fez. Desde a tenra infância, na casa da praia, quando a avó disse que o canteiro de jasmim era dela, até 2013, quando a menina ganhou o escapulário numa madrugada de novembro e entendeu que, a partir daquele momento, teria que se virar sozinha.
E ela se acostumou com isso e trancou a si quando pensou que tinha chegado ao final da história. Para tentar se sentir segura. Sem saber que tudo era só o começo. Mas ele sabe. Sabe que ela gasta tanto combustível brigando consigo que não aguenta; que uma hora ela desaba. Em algum ponto dessa história ela se torna doce e quer ser cuidada. Quer ser a menina dele. Mas é exatamente nesse ponto que ele vai embora.
Anúncios

Riscos

Era só mais uma noite, mas os sentimentos brotavam como erupções na pele. O corpo queimava em febre. Sentia dor até os ossos e o gosto de vinho tinto não a deixava esquecer. Tudo era desordem. Ela ainda sentia falta dele. Com ele, ela só queria ser frágil. Ser mulher. A mulher dele. Com ele, ela quis se dar inteira. Quis que ele tomasse posse e não a deixasse tão livre. Mas ele nunca suportou a ideia de se sentir cuidado. De se sentir amado. Porque o amor dela o arrastava para a própria lama. O amor dela incomodava porque fazia com que ele encarasse a verdade e olhasse para dentro de si. E o amor sempre exige riscos. Mesmo quando existem contratos ou promessas. E ele, ainda fingia certezas. Ele abandonava o barco e ela tinha que encarar o mundo sozinha.

Florescer

Sempre soube que esse amor tinha algo de ridículo. Como pode ela arder tanto e ele ser fraco para o sentir? Ela, pura desordem. Desejo até os poros, até as entranhas. Contramão. E ele mão única. Cinto de segurança. Ainda finge se sentir bem com o previsível. Ela quer derreter, se lambuzar. Come de colher, lambe os dedos e repete quando acaba. Ele quer mesa posta; garfo, faca e guardanapo de linho no colo. Ela, dá tudo de si: corpo, pele, alma. Lado A, B e avesso. Ele mantém distância até de si mesmo. Não consegue ir tão fundo. Ela cultiva para florescer. Ele murcha a cada dia.

Aleatório

“Whisper to the wind to say that love has sinned. To leave my heart aching and making this moan”.
Era madrugada quando o modo aleatório no spotify me trouxe de volta. As nuvens encobriram a lua me lembrando que a sua relutância acabou com esse amor. Eles me dizem que qualquer outro atenderia aos meus caprichos, que é quase absurdo existir um homem capaz de me deixar sozinha com tanto ardor. É que eles não sabem que seu maior talento é estragar tudo. Que quando me diz linda me fere mais um pouco. Que toda vez que se afasta me deixa novamente em carne viva. E que só sou escrava desse corpo carregado de saudade que, ainda que eu evite, clama por você a cada noite. Mas eu sei. Que um dia eu me canso. Que um dia me entrego para outro. Que um dia eles me convencem. Que um dia eu me convenço e vou embora de vez.