Cacos II/ Pieces II

Porque quando eu estava ao seu lado o mundo poderia explodir que eu não me importaria. Porque quando estávamos juntos, de alguma maneira, até as coisas mais sem sentido pareciam tão certas. Mas assim, de um dia pro outro, quem explodiu fomos nós dois. Foi o amor que eu sentia que foi quebrado, dilacerado. Enquanto eu ainda tentava juntar os pedacinhos você jogava tudo fora.
“Meu coração ainda corre ao teu encontro com demasiada violência” – escreve aquele filósofo. Se eu pudesse ainda correria pra você. Mas, mais uma vez, a única coisa que eu faço é atender ao seu desejo: você decidiu que tinha que acabar. E você nega, mas você sabe.  As incompatibilidades nunca foram o problema. O problema foi a sua escolha. De não nos deixar acontecer. Você que um dia me pediu para tentar. Para viver a nossa história até as últimas consequências, de repente escolheu não vivê-la.

Pieces II

Because when I was on your side the world could explode that I would not mind. Cause when we were together, somehow, even the most meaningless things seemed so right. But then, from one day to another, it was us that burst. It was the love I felt that was broken, torn apart. While I was still trying to join the pieces you threw it all away.
“All too violently my heart still flows toward you” writes that philosopher. If I could I still would flow for you. But once again, the only thing that I do is comply your desire: you decided that it had to end. And you deny, but you know it. The incompatibilities have never been the problem. The problem was your choice. Of do not to let us happen. You who one day requested me to try. To live our history to the fullest of consequences, suddenly chose not to live it.

04:19

Outra madrugada. Deitada em posição fetal. Fecho os olhos mas o sono não vem. Meu único sonho é retornar ao útero. A saudade corrói como úlcera hemorrágica. Como um eterno regurgitar de sentimentos. Sinto tua falta como se tivesse me arrancado um órgão vital. Pareço bem, mas há falta em tudo que eu vivo. Todo ar não é o bastante para me fazer respirar. Toda multidão é solidão. Todos os homens do mundo ainda seriam insuficientes. Viver parece um pesadelo, como se todos os dias fossem 04:19 daquela quarta-feira, quando você me mandou embora, “me disse pra ser feliz e passar bem” como na canção do Chico.

04:19

Another night. Lying in fetal position. I close my eyes but sleep doesn’t come. My only dream is return to the womb. Your lack is like a hemorrhagic ulcer. Like an everlasting regurgitating of feelings. I miss you like you ripped out one of my vital organ. I seem fine, but there is an empty in everything that I live. The air is not enough to making me breathe. Every crowd is just a loneliness. Every men in the world would still be insufficient. Living seems like a nightmare, like each day was 4:19 a.m that wednesday, when you sent me away, “told me to be happy and to be well” as in Chico Buarque’s song.

Just over

Sentada no chão frio. Estática. Anestesiada. Não grito, não esperneio, não imploro. Mal consigo responder. Não faço nenhum esforço para levantar, para segurar ou ao menos enxugar as lágrimas que escorrem compulsivamente enquanto releio mais uma vez aquelas duras palavras que você me enviou. Nunca imaginei que pudesse me dizer palavras tão frias e sem esperança. E nunca antes um homem havia me deixado assim. Não dessa maneira, como se fosse tão fácil virar as costas e seguir seu caminho. Enquanto eu fico aqui. Sozinha. Ainda sem saber o que fazer. Como uma coisa qualquer que se joga fora depois que cansou de usar.

Tua/ Yours

É que não entendo como pode me deixar sozinha por tanto tempo. Não vê o quanto tua falta ainda dói, machuca e me faz sangrar? E da última vez eu te pedi para não me fazer sofrer mais. Mas você faz pior. Me deixa sozinha, entregue à esta solidão inexorável quando eu mais preciso de tua presença. Porque sabe que por mais que eu queira me livrar desse amor – e eu ainda me atrevo a chamar “isto” de amor? – não vou me entregar para outro. Porque ser de outro seria ser ainda mais tua. Mas não vê que, mesmo ainda sendo o único dono do meu corpo, do meu desejo, minh’alma clama por liberdade? Por entrega e amor de verdade? Alguma coisa em mim me exige muito mais do que as migalhas que você se arrisca a me dar.

Yours

Is that I don’t understand how can you leave me alone for so long. Can’t you see how much your fault still hurt and make me bleed? And the last time I begged you not me hurt anymore. But you do worse. Leave me alone, delivered to this inexorable loneliness when I most need your presence. Because you know as much as I want to get rid of that love – and I still dare to call “this” love? – I’ll not hand up myself to another. Because give myself for another one would be even more yours. But you can’t see that even still being the only owner of my body, of my desire, my soul cries out for freedom? For surrender and true love? Something in me still want for much more than you venture to give me.