Defeito de fábrica

Queria ser equilibrada. Um dia até tentei me encaixar no seu padrão perfeito da tradicional família mineira.
Controle. Medida.
É algo que não me cabe.
Intensidade. Engano.
Tão errada que até o relógio biológico veio com defeito de fábrica.
Eu ainda busco fogo. Incendeio a cada instante. Mas a humanidade parece apagada. Morna. Sem vida.
Enquanto eu queimo até o último fio de cabelo os outros nem fome têm.
Ainda se conformam com aquilo que podem chamar de “normal”.
Eles? Satisfação. Rotina. Padrão.
Eu? Desmedida. Insaciável.
Faminta.
De amor. De vida.
Sedenta.
De desejo.
Entrega de corpo.
Dilaceramento.

De alma.

Violência

Eu nunca havia sentido tanta saudade.
Vontade.
E nesse desespero ainda me vem à cabeça a frase do meu (ops!) NOSSO filósofo preferido: “meu coração ainda corre ao teu encontro com demasiada violência.
Violência.
Tudo em demasia.
Urgência.
Sufoco.
Falta de ar.
Desejo.
Carne.
Humano. Demasiado humano.

 

 

À flor da pele

Tempo de lives.
Distância.
À flor da pele.
Sentimento online.

Em um “amor que tem pressa. Ele não pode esperar”.
Afobada.
Não consigo. Sei que se doar tanto é fora de moda. Out.

Ouch.

Ainda ouço jazz e escuto LP.
Anseios demais intensos para abraços contidos.

Como agulha que arranha o disco. Insisto em entregas viscerais. Como expor a ferida mais profunda em carne viva.

Náusea.

Não sei me conter.
Não me encaixo.
Dou corpo. Alma. Voracidade.
Desejo.
Fogo.

Frustração.

Teimo que meu melhor lado é “B e avesso”.
Enquanto ainda escolhe o disco livro pela capa.

Roda-gigante

É só esse vazio.

Abismo.
Falta de abraço.
Estar perto.
Cuidado e cuidar.
Eu costumava discordar do “é impossível ser feliz sozinho.”
Agora entendo.

O corpo é só minha porta de entrada.
Só sei ser corpo e alma.
Agora angústia e falta.
Dilacerada pela vida.
Sempre quis “ser importante sendo diferente”.
Agora parte de uma história.
Não me encaixava.
Agora parte do todo.
O estranhamento não é mais meu.
Nosso.

O desejo permanece.
Insiste.
Arde.
Queima.
Desassossega.

Mas não me reconheço mais mulher.
Apenas humana.
Instinto animal.
Primitivo.

Eis que é chegada a “última hora”.
Todo amor que não demos.
E agora já não temos tempo.

“O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração”