Backup

Era para ser só mais um backup do icloud. Mas no meio apareceu aquela foto. Aquela que tirei da sua varanda para conseguir acreditar no dia seguinte que aquele momento era real.
Fora do tempo. Fora do mundo. Fora de mim.
Aquela noite éramos nós. O melhor – e o pior – adeus. Saber que só me entrego daquele jeito para você não me quebra. Me estilhaça.
Mas a vida exige continuidade. Exige buscar outros p(ares) para não sufocar por esse amor de superfície.
Eu escrevo porque é o que sei fazer para buscar o que é mais profundo. Escrevo para continuar.
Eu literatura, você música. Nos perdemos de verdade dessa vez.
Era você quem acendia, agora extingue o desejo.
Se conecta com a música porque não é mais capaz de estabelecer conexões reais. Prefere o utópico fora do tempo. O raso na vida real.
Toda vez que bebe. Toda vez que toca ou canta é como se quisesse quebrar o que te prende. Como se quisesse se soltar e expulsar as mágoas a cada sopro. Mas por algum motivo só escolhe recuar.
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The last one: adeus

“Then left with a heart that is breaking.” É com violência que fecho o Spotify enquanto escuto as últimas notas e a voz de Dean Martin. Com a mesma vontade que tenho de te deletar da minha vida. De uma só vez. “But nevertheless I’m in love with you”. Mas tudo o que sobrou foram lembranças, restos de amor barato. Faço de tudo para anestesiar sentimentos. Agora sei que aquela noite não passou de uma despedida. Enquanto vejo tudo fora de lugar prefere, mais uma vez, se esconder, fingir que está tudo certo e continuar distante. Ainda que o deseje a cada noite nós dois não fazemos mais sentido. E pela primeira vez eu deixei de acreditar. Existem possibilidades demais para me prender à quem só me deixa solta demais. Enquanto eu incendeio a cada instante com a desmedida de meus sentimentos você insiste em buscar máscaras, armaduras e válvulas de escape mornas que se encaixem no seu mundinho perfeito. Ainda é árduo entender que escolha “gostar muito”. Está faminto de amor, mas é covarde para amar.

Carta aberta

Madrugada de sábado, 02:25.
Manhã de segunda. Chuva. Trânsito. Aproveito para ouvir um podcast de business no caminho.
Rotina. Checo os emails. Respondo meia dúzia deles e subo até o 22º andar. Para respirar. Para tentar enxergar outras possibilidades. Na esperança de que o vento leve embora pelo menos um pouco de toda essa intensidade. Enquanto meus sentidos ainda te buscam: vejo meus olhos procurando o ponto do horizonte mais próximo à você.
Vou até a cozinha. Café preto: “black coffee, love’s a hand me down brew“. Como tudo pode estar tão certo e, ao mesmo tempo tão fora de lugar? Tormento. Tempestade. Furacão. Tão longe de encontrar calmaria enquanto estiver tão distante.
A vida quer dar um jeito: “entra nos eixos”. Encontra um caminho. Tudo parece organizado. Engaveto desejos ardentes a cada instante, mas você deveria saber que, por dentro, ainda sou só desordem.
Uma máscara por dia. Uma nova tentativa: de aceitar enquanto tento, pela última vez, escrever algo intenso o suficiente para te despertar. Para te pedir coragem para o sentir. Para buscar, de alguma forma, reacender aquele desejo. Para, de qualquer jeito, esgotar os resquícios desse amor falido que já não tem fôlego para respirar.

Ridículo

Como podes ler o que te escrevo e ainda ficar indiferente? E não vir correndo para esse abraço? Para possuir esse corpo que ainda é tão seu?
Como consegues passar todo esse tempo fugindo? Correndo para longe do que mais desejas e fingindo estar bem? Tentas, mas não me enganas.
Sim. És cruel comigo desde aquela noite, mas sabes que és ainda mais cruel contigo.
Foges de mim porque não te suportas.
Meu bem, ainda não sabes que é mais difícil fingir do que enfrentar todo o ridículo do amor?