Night and day

Inverno. Aquele porre de vinho e jazz. A voz suave de Ella ao fundo: “There’s an on such a hungry yearning burning inside of me”.  Madrugada de sábado e tempo demais sem a tua presença. Tempo demais desperdiçado longe de você. O amor tem que ser usado, gasto até a última gota. O termômetro marca 14 graus mas eu ainda queimo pelo excesso de desejo. Calor da alma. Calor que toma conta de cada mínima parte do meu corpo. Como se todos estivessem no inverno e somente eu esquecida no verão. Logo eu, que carrego esse fardo da indisciplina do corpo, que insiste em te querer a cada instante: “night and day […] wheter near to me, or far”.

Quebra-cabeças

Todas as inquietações me vem à tona hoje como quem arranca cascas de machucados com as unhas e deixa sangrar uma ferida que nunca cicatriza. Viver nesta cidade é um martírio crônico. As ruas não me cabem. As pessoas me olham mas não me enxergam. Só veem um padrão, como embalagens cuidadosamente dispostas na prateleira do supermercado. Ninguém se olha, ninguém se vê, ninguém se sente de verdade. Eles nem sabem o que é sentir como eu sinto. E nunca saberão. Porque só suportam a superfície: o raso, o que é por demais previsível e confortável. Enquanto em mim aquela inadequação teima em aparecer mais uma vez, ainda que eu tente expurgá-la como veneno. Algo sempre está fora de lugar. Mas a peça errada sou eu. O Chico disse que na reencarnação ninguém erra de endereço, mas sei que estou sobrando no quebra-cabeças desta cidade. Eu não me encaixo nela e ela não se encaixa em mim.

Domingo

Domingo. Lá fora gritos de torcedores e música alta. Pareço mesmo viver à parte porque alheia a todos os estímulos, só a frase daquele filme sobre Emily Dickinson que assisti há 2 semanas, ainda insiste em martelar na minha cabeça, como se estivesse introjetada no corpo: “nós, que nascemos privados de um tipo específico de amor, lidamos melhor com a falta”. Todas as feridas e frustrações me aparecem como num turbilhão. As lágrimas de hoje borram a maquiagem de ontem. Você não me disse nada. Nem me deu a mão pra me ajudar a cuidar de mim. E ainda assim eu não te peço nada. Agora eu só quero ir embora.

Outono

Outono que mais parece verão. A cabeça dilata enquanto ainda insisto na besteira de me entregar até os poros. Ingênua, talvez. Bato recordes de ingestão de ibuprofeno e mais uma vez me vejo largada, sem lugar nessa vida. Cansei de ser assim. Sem dono. Cansei de me ver mulher. Mulher e sozinha. Já passei dos 30 e quero ser mãe. Quero filho, família. Porto seguro. Quero alguém pra descobrir. Escrever e amar de novo. Amar e escrever de novo. Cansei de não ser de ninguém. Quero amor, quero espera. Quero briga. Quero sexo. Nunca vou ser sua bonequinha impecável e “pronta pro uso”, mas ainda arrisco desejar a rotina de amar e ser amada pelo mesmo homem todos os dias.