Compulsiva

Já passei dos 30.
Quero um homem para amar.
E em meu ventre de mulher
quero um filho do homem que amo.

O corpo se revolta.
O útero adoece;
sangra,
chora.

A alma queima.

É só mais uma noite de insônia.
Outro dia.
Outros flertes.
Outros homens.

Mudo os móveis.
Reviro a vida.
Ajo por impulso.
Por desejo;
faço escândalo;
faço estrago.

Compulsão.
Comida. Sexo. Compras.
Trabalho.
Punição do corpo.
Libido deslocada.

Antiácido.
Dedo na garganta.
Vômito.

Devora o mundo.
E continua com fome de vida.

No corredor do supermercado

“Me apaixonei pelo que eu inventei de você.”
Marília.
Sertanejo. Brega.
Você? Elite.
“O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer.”
Cazuza.
Poeta. Porra louca.
Você? Tradicional família mineira.
“Você tem esse jeitinho de artista, mas na verdade você é igual a qualquer outro homem.”

Foi naquele dia que eu me dei conta.
Que eu te amava sim.
Inteira. Ardia.
Sofria.
Me consumia.
Até o último poro do corpo.
Me entregava.
Até o último resquício de sentimento.

Me diz “didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?”

Mas você se esgueirava. Escorregava toda vez que chegávamos tão perto.

E eu por demais mulher.

Enquanto você carregava o peso de um menino abandonado.

Foi naquele dia que eu me dei conta.
No corredor do supermercado.
Que aquilo não era mais amor.
Era a cura.

Regurgitar

Recorro a taças de vinho tinto na madrugada para diluir a mim mesma. Goles compulsivos buscando satisfazer minh’alma sedenta.
Alma sedenta.
Carne faminta.
Cada gole um golpe de azia.
Uma vã tentativa de digerir sentimentos.
Náuseas.
O estômago grita.
O útero chora.
Dedo na garganta.
Regurgitava.
Restos.
Seus restos.
Impregnado em mim.
O desejo.
Ardor constante.
03:17.
Continuo a queimar.
É amor ou essa ânsia eterna de amar?