Florescer

Sempre soube que esse amor tinha algo de ridículo. Como pode ela arder tanto e ele ser fraco para o sentir? Ela, pura desordem. Desejo até os poros, até as entranhas. Contramão. E ele mão única. Cinto de segurança. Ainda finge se sentir bem com o previsível. Ela quer derreter, se lambuzar. Come de colher, lambe os dedos e quer repetir quando acaba. Ele quer mesa posta; garfo, faca e guardanapo de linho no colo. Ela, dá tudo de si: corpo, pele, alma. Lado A, B e avesso. Ele mantém distância até de si mesmo. Não consegue ir tão fundo. Ela cultiva para florescer. Ele murcha a cada dia.

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Aleatório

“Whisper to the wind to say that love has sinned. To leave my heart aching and making this moan”.
Era madrugada quando o modo aleatório no spotify me trouxe de volta. As nuvens encobriram a lua me lembrando que a sua relutância acabou com esse amor. Eles me dizem que qualquer outro atenderia aos meus caprichos, que é quase absurdo existir um homem capaz de me deixar sozinha com tanto ardor. É que eles não sabem que seu maior talento é estragar tudo. Que quando me diz linda me fere mais um pouco. Que toda vez que se afasta me deixa novamente em carne viva. E que só sou escrava desse corpo carregado de saudade que, ainda que eu evite, clama por você a cada noite. Mas eu sei. Que um dia eu me canso. Que um dia me entrego para outro. Que um dia eles me convencem. Que um dia eu me convenço e vou embora de vez.

Cruel

“Olhos nos olhos quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais” canta o Chico como se me dissesse pra tentar. Mas ele é cruel. Não consegue me ver livre. Não consegue me ver bem que volta. Não volta para ficar, mas para desatinar. O corpo, o desejo. O sexo. A alma. Aquela obstinação em amar. Ainda tem medo demais para ficar mas sabe que esse amor me alcança até os poros. Ainda me inflama até os ossos.

Só o que eu queria…

Eu queria acreditar, pelo menos por um momento, que, se você soubesse desse desatino voltaria correndo. Eu queria acreditar que, se de fato soubesse como me fez sentir, nunca teria tido coragem de ir embora de maneira tão covarde. Eu queria que você pudesse sentir o calor do meu corpo mais uma vez, mas queria, antes de tudo, que soubesse que, depois daquela noite eu só me senti qualquer coisa. Qualquer coisa que se joga fora. Qualquer coisa insuficiente. A vida me apresenta mil outras possibilidades e eu ainda queria que você pudesse ser o homem que eu preciso. Só queria que pudesse estar mais perto; muito além daquela playlist e dos livros que eu leio.