No corredor do supermercado

“Me apaixonei pelo que eu inventei de você.”
Marília.
Sertanejo. Brega.
Você? Elite.
“O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer.”
Cazuza.
Poeta. Porra louca.
Você? Tradicional família mineira.
“Você tem esse jeitinho de artista, mas na verdade você é igual a qualquer outro homem.”

Foi naquele dia que eu me dei conta.
Que eu te amava sim.
Inteira. Ardia.
Sofria.
Me consumia.
Até o último poro do corpo.
Me entregava.
Até o último resquício de sentimento.

Me diz “didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?”

Mas você se esgueirava. Escorregava toda vez que chegávamos tão perto.

E eu por demais mulher.

Enquanto você carregava o peso de um menino abandonado.

Foi naquele dia que eu me dei conta.
No corredor do supermercado.
Que aquilo não era mais amor.
Era a cura.

Regurgitar

Recorro a taças de vinho tinto na madrugada para diluir a mim mesma. Goles compulsivos buscando satisfazer minh’alma sedenta.
Alma sedenta.
Carne faminta.
Cada gole um golpe de azia.
Uma vã tentativa de digerir sentimentos.
Náuseas.
O estômago grita.
O útero chora.
Dedo na garganta.
Regurgitava.
Restos.
Seus restos.
Impregnado em mim.
O desejo.
Ardor constante.
03:17.
Continuo a queimar.
É amor ou essa ânsia eterna de amar?

Defeito de fábrica

Queria ser equilibrada. Um dia até tentei me encaixar no seu padrão perfeito da tradicional família mineira.
Controle. Medida.
É algo que não me cabe.
Intensidade. Engano.
Tão errada que até o relógio biológico veio com defeito de fábrica.
Eu ainda busco fogo. Incendeio a cada instante. Mas a humanidade parece apagada. Morna. Sem vida.
Enquanto eu queimo até o último fio de cabelo os outros nem fome têm.
Ainda se conformam com aquilo que podem chamar de “normal”.
Eles? Satisfação. Rotina. Padrão.
Eu? Desmedida. Insaciável.
Faminta.
De amor. De vida.
Sedenta.
De desejo.
Entrega de corpo.
Dilaceramento.

De alma.