Em chamas

“Always alone at home or in a crowd;
A single woman out on a private cloud;
Caught in a world few people understand.”


Têm noites que ainda me sinto tão só.
Um mundo tão grande cheio de pessoas tão pequenas.
Minh’alma implora por socorro. Por colo e carinho.
Mas ninguém acolhe.
Uma fortaleza prestes a desmoronar.
Um campo de batalha.
Bandeira branca em chamas.

 

Não se come a carne

“Onde se ganha o pão não se come a carne”.
Mesmo naquele first day ainda tentava manter o foco.
Vestia a máscara.
Encarava com seriedade.
Respirava fundo a cada troca de olhar.
Tentava separar as coisas, mas a vida me esfregava na cara ser uma só. Insistia em mostrar que sou por demais inteira para me doar aos poucos para o que me chama com tanta volúpia.
Desejo que consome qualquer vestígio de razão.
Insiste.
Desassossega.
Aqueles olhos. Barba por fazer. Sorriso de canto de boca.
Imaginação. Fantasia.
Não me contenho.
Pisa no freio quando quero avançar o sinal vermelho.
Ainda recuamos quando chegamos tão perto.

De galho em galho

Eu, que ainda tenho essa alma de bicho solto em algum momento vou me prender.
Esta noite. Rasgo, arranco com violência até a última peça.
Alma nua.
Em carne viva.
Já vim ao mundo despida de medos convencionais.
Essência selvagem. Não desejo menos do que me doar até as vísceras.
Você vai continuar tentando. Vai pular de galho em galho. Até a figueira secar.
Sísifo. Sobe, mas sabe que cedo ou tarde a pedra vai rolar novamente.
“A alma desapareceu desse corpo inerte onde uma bofetada não marca mais*”, diz aquele filósofo.
Já não sente.
Aparência.
Raso. Superfície.
Me diz, nunca se cansa de tentar preencher todo esse vazio?

*Albert Camus, O mito de Sísifo

Desafino

“When I try to sing you say I’m off key…”

Desafino. Acorde errado.

Aquela batida. Mais uma nota. Uma última canção para amantes.

Sobre um amor que nunca tocou na nota certa.

Madrugada.

Chuva.

Um porre de jazz e blues.

Aqui “jazz” uma história de amor.

A mesma batida.

Tento manter o ritmo.

Entrar no eixo da canção.

Mas o que me guia é o descompasso.

Desordenada.

Desafinada.