No meio da noite fria

Desde que ele se foi;
voltei a ter crises de insônia.
Melatonina. Rescue Night.
Acordo no meio da noite fria.
Sozinha. Cama vazia. Sem aquele abraço.
Agora sei que ele não é o amor que eu procurava.
Outros amores; reencontros.
A vida segue o ritmo.
Ainda sinto alguma falta daqueles dias;
nos quais o sono era tranquilo;
e os dias mais leves.

Porta Retrato

Final de tarde de um feriado no meio da semana.
O porta retrato vazio na estante do corredor escancara toda essa falta.
Por um momento achei que seria você.
Que seria forte o suficiente para preencher esse vazio.
Que seria diferente para aguentar este fardo que sou.
A solidão assola.
Tua presença é que me faz falta.
Quando os dias eram mais leves
e os finais de semana eram doces.
A vida começou a amargar;
mas o “show de todo artista tem que continuar”.
O tempo é cruel.
Distância.
Tão longe.
Tivemos tão pouco tempo;
tantos sonhos ainda por realizar:
a viagem que planejamos fazer;
aquele seriado na Netflix que não terminamos de assistir.
Será que não se importa mais?
As lembranças começam a se tornar turvas:
nada mais do que alguns flashes.
Cansei de insistir, mas…
o meu peito ainda aperta, quer voltar;
e você insiste em se afastar.

Eles

M um dia foi amor. Depois virou saudade, chegou a orgulho: “o teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer”. Hoje é poesia.
R sempre foi sexo. Instinto. Sexo e arte. Homem e mulher. Macho e fêmea. Como Henry e Anais: “meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”.
B chegou em época errada. Tornou-se conforto. Carinho e até conselho. Foi ele quem me disse outro dia que coloco: “caco de vidro no muro para o amor desistir”
F eu até tentei. Mas nunca passou de mais um: “você se parece com todo mundo”.
J Talvez algo novo? – : “não deixe tanta vida ‘pra’ depois”. Talvez um novo verso, uma nova trilha.
Ressignifico amores. Me abro de novo, mas
ainda escondo alguns desejos no fundo do armário.
Tento “arrumar a casa”. Como se fossem algo qualquer que precisa ser guardado.
Organizado. Engavetado.
Me apropriei daquilo que M me trouxe. Não é mais dele, virou meu. Era a paixão dele, virou minha. E ele hoje é mais um verso. Só um rascunho.
E quase todos viraram lembranças. Como fotos numa velha caixa.
Mas ainda fazem parte dessa história.
Bagunço a vida. Viro o jogo.
Monto o tabuleiro. Dou as cartas.
Me preparo para uma nova partida.
Mas não tem truco. Zap.
Nem xeque mate.
A rainha virou plebeia: “and my heart got lost somewhere in the shuffle,
so I’m all alone playing solitaire”