No corredor do supermercado

“Me apaixonei pelo que eu inventei de você.”
Marília.
Sertanejo. Brega.
Você? Elite.
“O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer.”
Cazuza.
Poeta. Porra louca.
Você? Tradicional família mineira.
“Você tem esse jeitinho de artista, mas na verdade você é igual a qualquer outro homem.”

Foi naquele dia que eu me dei conta.
Que eu te amava sim.
Inteira. Ardia.
Sofria.
Me consumia.
Até o último poro do corpo.
Me entregava.
Até o último resquício de sentimento.

Me diz “didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?”

Mas você se esgueirava. Escorregava toda vez que chegávamos tão perto.

E eu por demais mulher.

Enquanto você carregava o peso de um menino abandonado.

Foi naquele dia que eu me dei conta.
No corredor do supermercado.
Que aquilo não era mais amor.
Era a cura.

Defeito de fábrica

Queria ser equilibrada. Um dia até tentei me encaixar no seu padrão perfeito da tradicional família mineira.
Controle. Medida.
É algo que não me cabe.
Intensidade. Engano.
Tão errada que até o relógio biológico veio com defeito de fábrica.
Eu ainda busco fogo. Incendeio a cada instante. Mas a humanidade parece apagada. Morna. Sem vida.
Enquanto eu queimo até o último fio de cabelo os outros nem fome têm.
Ainda se conformam com aquilo que podem chamar de “normal”.
Eles? Satisfação. Rotina. Padrão.
Eu? Desmedida. Insaciável.
Faminta.
De amor. De vida.
Sedenta.
De desejo.
Entrega de corpo.
Dilaceramento.

De alma.

Roda-gigante

É só esse vazio.

Abismo.
Falta de abraço.
Estar perto.
Cuidado e cuidar.
Eu costumava discordar do “é impossível ser feliz sozinho.”
Agora entendo.

O corpo é só minha porta de entrada.
Só sei ser corpo e alma.
Agora angústia e falta.
Dilacerada pela vida.
Sempre quis “ser importante sendo diferente”.
Agora parte de uma história.
Não me encaixava.
Agora parte do todo.
O estranhamento não é mais meu.
Nosso.

O desejo permanece.
Insiste.
Arde.
Queima.
Desassossega.

Mas não me reconheço mais mulher.
Apenas humana.
Instinto animal.
Primitivo.

Eis que é chegada a “última hora”.
Todo amor que não demos.
E agora já não temos tempo.

“O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração”

 

 

Cura

Outono costumava ser minha estação favorita.
Devorava o mundo; tão faminta de amor. Ataques compulsivos tentando preencher o vazio da tua falta. Regurgitava sentimentos indigestos na mesma proporção dos frangalhos que me deixava. Didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?/ Honey, you know I did!/ (just) take another little piece of my heart.”
Como restos de comida que se joga a um cachorro sem dono. Dama e Vagabundo. Na nossa história nunca me deixou ser a dama.
Estava nas suas mãos. O pouco que tinha te dava, quase nada me sobrava.
Meu corpo e alma queimavam a todo instante; transtornados pela ignorância do desejo. Mas suas mãos não passavam de membro imobilizado. Como osso quebrado. Tudo era sempre pela metade. O nosso laço era frouxo.
Jazz. Aqui jaz um romance. Notas tocadas como pus saindo de machucado. Um corte lento e profundo. Um amor que acaba como um acorde interrompido. Sem improviso.
Dolorido.
Você tentava tapar os buracos enquanto eu insistia em jogar álcool na ferida aberta. A cada noite meu corpo sujo e dilacerado.
Eu era tempestade; você? garoa.
Tentava abrir as portas; batia, arrombava, fazia escândalo.
Eu era céu aberto, azul de outono; você? neblina.
Eu insistia na gente. Quanto menos você me dava mais eu tentava.
Implorava. Desejava com todos os poros do corpo. Mendigava amor e recebia esmolas.
Capricho.
Doença.
Dependência.

Recaída.
Quarentena.
Abstinência.

Libertação.
Cura.