Backup

Era para ser só mais um backup do icloud. Mas no meio apareceu aquela foto. Aquela que tirei da sua varanda para conseguir acreditar no dia seguinte que aquele momento era real.
Fora do tempo. Fora do mundo. Fora de mim.
Aquela noite éramos nós. O melhor – e o pior – adeus. Saber que só me entrego daquele jeito para você não me quebra. Me estilhaça.
Mas a vida exige continuidade. Exige buscar outros p(ares) para não sufocar por esse amor de superfície.
Eu escrevo porque é o que sei fazer para buscar o que é mais profundo. Escrevo para continuar.
Eu literatura, você música. Nos perdemos de verdade dessa vez.
Era você quem acendia, agora extingue o desejo.
Se conecta com a música porque não é mais capaz de estabelecer conexões reais. Prefere o utópico fora do tempo. O raso na vida real.
Toda vez que bebe. Toda vez que toca ou canta é como se quisesse quebrar o que te prende. Como se quisesse se soltar e expulsar as mágoas a cada sopro. Mas por algum motivo só escolhe recuar.
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Ridículo

Como podes ler o que te escrevo e ainda ficar indiferente? E não vir correndo para esse abraço? Para possuir esse corpo que ainda é tão seu?
Como consegues passar todo esse tempo fugindo? Correndo para longe do que mais desejas e fingindo estar bem? Tentas, mas não me enganas.
Sim. És cruel comigo desde aquela noite, mas sabes que és ainda mais cruel contigo.
Foges de mim porque não te suportas.
Meu bem, ainda não sabes que é mais difícil fingir do que enfrentar todo o ridículo do amor?

Desassossego

Eu sei que não é nada mais que ridículo saber que tua falta me dilacera como quem carrega sob os ombros todo o pesar da humanidade.
Ainda que me afaste ao máximo e tente seguir, os caminhos e lembranças me levam de volta.
O que mais dói é não saber. Já sei que agora bebe café, mas ainda não sei se toma o café da manhã.
A beleza é só castigo quando outros me desejam. É de amor que ainda estou faminta. Cada toque que não o seu não passa de um martírio. Mas eu deixo. Me deixo levar por outras carícias e até finjo gostar. Visto a máscara. Faço uso de todos os artifícios para tentar enganar esse amor, mas meu corpo grita por todo esse vazio.
Há uma mulher que gostaria de se libertar e esquecer, mas ainda há aquela outra que só sossegaria em teus braços. Que esqueceria toda loucura, que se libertaria de todos os anseios se pudesse apenas ser tua.

Avesso

Passei 1 ano juntando os cacos. Revirando essa história do avesso. Tentando recolher os destroços de mim mesma.
Meu corpo queima a cada noite. Eu ainda sinto saudades demais. E você ainda se afasta demais.
Parece que foi ontem que esteve em meus braços. Talvez você não saiba, mas, naquela noite, apesar da devassidão, eu não passava de uma menina te pedindo pra ficar.
02:42. Entro no chuveiro. Esfrego a pele com força para tentar remover o que ainda ficou impregnado desse amor. Como quem busca extrair todo veneno.
Nada adianta. Tudo o que consigo são manchas vermelhas e um ardor violento que só me leva de volta pra você.
Choro de desejo e te chamo com todos os sentidos. Com a carne. Com a volúpia do corpo. Com sentimentos puros e anseios intensos.
Viro do avesso. Até tento, mas é por você que eu ainda arrepio. Enquanto prefere fingir felicidade com outra.