Roda-gigante

É só esse vazio.

Abismo.
Falta de abraço.
Estar perto.
Cuidado e cuidar.
Eu costumava discordar do “é impossível ser feliz sozinho.”
Agora entendo.

O corpo é só minha porta de entrada.
Só sei ser corpo e alma.
Agora angústia e falta.
Dilacerada pela vida.
Sempre quis “ser importante sendo diferente”. Agora parte de uma história.
Não me encaixava.
Agora parte do todo.
O estranhamento não é mais meu.
Nosso.

O desejo permanece.
Insiste.
Arde.
Queima.
Desassossega.

Mas não me reconheço mais mulher.
Apenas humana.
Instinto animal.
Primitivo.

Todo amor que não demos.
E agora já não temos tempo.

“O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração”

 

 

Cura

Outono costumava ser minha estação favorita.
Devorava o mundo; tão faminta de amor. Ataques compulsivos tentando preencher o vazio da tua falta. Regurgitava sentimentos indigestos na mesma proporção dos frangalhos que me deixava. Didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?/ Honey, you know I did!/ (just) take another little piece of my heart.”
Como restos de comida que se joga a um cachorro sem dono. Dama e Vagabundo. Na nossa história nunca me deixou ser a dama.
Estava nas suas mãos. O pouco que tinha te dava, quase nada me sobrava.
Meu corpo e alma queimavam a todo instante; transtornados pela ignorância do desejo. Mas suas mãos não passavam de membro imobilizado. Como osso quebrado. Tudo era sempre pela metade. O nosso laço era frouxo.
Jazz. Aqui jaz um romance. Notas tocadas como pus saindo de machucado. Um corte lento e profundo. Um amor que acaba como um acorde interrompido. Sem improviso.
Dolorido.
Você tentava tapar os buracos enquanto eu insistia em jogar álcool na ferida aberta. A cada noite meu corpo sujo e dilacerado.
Eu era tempestade; você? garoa.
Tentava abrir as portas; batia, arrombava, fazia escândalo.
Eu era céu aberto, azul de outono; você? neblina.
Eu insistia na gente. Quanto menos você me dava mais eu tentava.
Implorava. Desejava com todos os poros do corpo. Mendigava amor e recebia esmolas.
Capricho.
Doença.
Dependência.

Recaída.
Quarentena.
Abstinência.

Libertação.
Cura.

Parasita

Madrugada. O relógio marca 01:39.
Quarentena.
Tempo em suspensão.
Silêncio.
Mas é o desejo que consome. Atormenta.
Um vírus.
Agente infeccioso.
Ataca e toma conta.
Parasita.
Desassossega o corpo.
Lambuza o íntimo.
Queima até a última vertebra.
Febre.
Delírio.
Convulsão.
Sem cura. Sem remédio e solução.

De galho em galho

Eu, que ainda tenho essa alma de bicho solto em algum momento vou me prender.
Esta noite. Rasgo, arranco com violência até a última peça.
Alma nua.
Em carne viva.
Já vim ao mundo despida de medos convencionais.
Essência selvagem. Não desejo menos do que me doar até as vísceras.
Você vai continuar tentando. Vai pular de galho em galho. Até a figueira secar.
Sísifo. Sobe, mas sabe que cedo ou tarde a pedra vai rolar novamente.
“A alma desapareceu desse corpo inerte onde uma bofetada não marca mais*”, diz aquele filósofo.
Já não sente.
Aparência.
Raso. Superfície.
Me diz, nunca se cansa de tentar preencher todo esse vazio?

*Albert Camus, O mito de Sísifo