Parasita

Madrugada. O relógio marca 01:39.
Quarentena.
Tempo em suspensão.
Silêncio.
Mas é o desejo que consome. Atormenta.
Um vírus.
Agente infeccioso.
Ataca e toma conta.
Parasita.
Desassossega o corpo.
Lambuza o íntimo.
Queima até a última vertebra.
Febre.
Delírio.
Convulsão.
Sem cura. Sem remédio e solução.

De galho em galho

Eu, que ainda tenho essa alma de bicho solto em algum momento vou me prender.
Esta noite. Rasgo, arranco com violência até a última peça.
Alma nua.
Em carne viva.
Já vim ao mundo despida de medos convencionais.
Essência selvagem. Não desejo menos do que me doar até as vísceras.
Você vai continuar tentando. Vai pular de galho em galho. Até a figueira secar.
Sísifo. Sobe, mas sabe que cedo ou tarde a pedra vai rolar novamente.
“A alma desapareceu desse corpo inerte onde uma bofetada não marca mais*”, diz aquele filósofo.
Já não sente.
Aparência.
Raso. Superfície.
Me diz, nunca se cansa de tentar preencher todo esse vazio?

*Albert Camus, O mito de Sísifo