No corredor do supermercado

“Me apaixonei pelo que eu inventei de você.”
Marília.
Sertanejo. Brega.
Você? Elite.
“O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer.”
Cazuza.
Poeta. Porra louca.
Você? Tradicional família mineira.
“Você tem esse jeitinho de artista, mas na verdade você é igual a qualquer outro homem.”

Foi naquele dia que eu me dei conta.
Que eu te amava sim.
Inteira. Ardia.
Sofria.
Me consumia.
Até o último poro do corpo.
Me entregava.
Até o último resquício de sentimento.

Me diz “didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?”

Mas você se esgueirava. Escorregava toda vez que chegávamos tão perto.

E eu por demais mulher.

Enquanto você carregava o peso de um menino abandonado.

Foi naquele dia que eu me dei conta.
No corredor do supermercado.
Que aquilo não era mais amor.
Era a cura.

Parasita

Madrugada. O relógio marca 01:39.
Quarentena.
Tempo em suspensão.
Silêncio.
Mas é o desejo que consome. Atormenta.
Um vírus.
Agente infeccioso.
Ataca e toma conta.
Parasita.
Desassossega o corpo.
Lambuza o íntimo.
Queima até a última vertebra.
Febre.
Delírio.
Convulsão.
Sem cura. Sem remédio e solução.

Saudade

Eu nem me atrevo a chamar de saudade

essa angústia que agora me prende o peito.

Não tenho certeza.

Quase faz cócegas.

Incomoda. Perturba.

Quase dói. Tão juntos. Próximos.

Tão longe. Tão sintonizados.

Tão distante.

Tanta coisa por viver.

Aquela música por dançar.

Aquele último gole.

Saideira.

Eu não sei. Você também não.

Já não conto os dias, mas te espero quero.