Sangrando III/ Bleeding III

Aqui nessa cidade te busco pelas ruas mesmo sabendo que você não está. E ainda assim tudo me lembra nós. Todo concreto reflete a dureza desses sentimentos e pareço te encontrar a cada esquina. Aqui nessa cidade pela primeira vez a solidão me dói e sinto a dor do amor que mais sangra. Me fecho no quarto de hotel e me jogo na cama enquanto ouço a voz de Sinatra ao fundo: “I’ve tried so not to give in. I’ve said to myself this affair never gonna swing so well.” Tomo goles de vinho tinto buscando engolir rápido tudo aquilo que minha alma ainda teima em sentir. Mas essa avalanche de sensações é forte demais para meu coração tão bobo. Saio para caminhar pelas ruas da cidade que há 10 anos teimo em chamar de minha. As luzes da avenida, que sempre me inspiraram tanto, agora só fazem acender essa dor de paixão insensata. A multidão parece não me ver e eu ando em passos rápidos, nessa pressa eterna de viver, tentando me esquivar dessa minha solidão acompanhada. O vento forte e frio dessas ruas não me afeta porque tua violência ainda é a única que me faz falta.


Bleeding III

Here in this city I seek you for the streets even though you aren’t. And everything reminds me us. All this concrete jungle show me the hardness of these feelings and I look like find you at every turn. Here in this city, for the first time, loneliness hurts me and I feel the pain of love that most bleeds. I lock myself in the hotel room and throw myself on the bed while I hear the voice of Sinatra in the background: “I’ve tried so not to give in I’ve said to myself this affair never gonna swing so well” I take sips of red wine seeking quick swallow everything that my soul still insists on feeling. But this mess of feelings is too strong for my fool heart. I go out to walk the city streets which 10 years ago I insist call mine. The lights of avenue, that always inspired me, now only show me this pain of senseless passion. The people don’t seem to see me and I walk in hurried steps in this hurry to live, trying to dodge my loneliness. The strong and cold wind for these streets don’t affect me because your fierceness is still one that I miss.

Sangrando II/ Bleeding II

Por aqui solidão e lágrimas. Justo eu, que busco ser diferente agora sou só clichês de um coração partido. Porque logo você, que me escreve aquelas palavras, dizendo que homem também sangra, não consegue perceber que só consegue me fazer sangrar. E nada me deixou tão surpresa quanto você. Você, que parecia tão diferente e que agora se parece com todos eles. Você, com suas palavras. Com seus olhares. Com seus livros, textos e filosofia. E o que você sabe de amor? Pecado, eu diria, é um homem matar assim, a sangue frio, o amor de uma mulher. Pecado é fazer uma mulher se entregar. E depois jogar fora. Pecado é fazer uma mulher sentir o coração na boca e o peito aberto. E depois a deixar sozinha. Dilacerada, com marcas de um amor que não sai da pele. Porque nessa vida, pecado mesmo, é fazer a alma de uma mulher sangrar.

Bleeding II

Here loneliness and tears. Just me, that try to be so different, now I’m just clichés of a broken heart. Because you, who writes me those words, saying man also bleeds, can not realize that makes me bleed all the time. And no one made me as surprised as you. You, who looked so different and now looks like all of them. You, with your sweet words. With your eyes. With your books, texts, and philosophy. And what do you know about love? Sin, I say, is a man kill, in cold blood, the love of a woman. Sin is make a woman give all herself. And then throw away. Sin is to make a woman feel the heart in mouth and chest open. And then to leave her alone. Torn, with marks of love in skin. Because in this life, the worst evil is to make the soul of a woman bleed.

Sangrando I/Bleeding I

Acabou. The end. Sem palavras, sem adeus. Mas eu sei que, desde a última vez, algo em mim morreu. Como facada a sangue-frio diretamente num ventre de mulher. Sei que da próxima vez em que estivermos juntos trocaremos olhos cheios de fogo e desejo por cordialismo e abraços frios. O ar me falta, o peito aperta, a boca seca. Como naquele dia que você me levou pra longe e minha única vontade era ser tua. Tua mulher, tua fêmea. E meu útero não parava de sangrar, como se antes da alma, o corpo já soubesse que eu iria sair dessa história despedaçada. História essa que, desde o início, sabíamos já premeditada ao fracasso. Mesmo que, de qualquer maneira, eu ainda esteja intensamente ligada a você e que minha carne ainda tenha marcas desse nosso amor. Agora, mais uma vez, estou só. Perdida, largada, jogada às traças. Entregue ao meu próprio desespero, com as veias do coração dilaceradas. De volta às antigas cicatrizes que ainda sangram e me ardem tão profundamente.

Bleeding I

It’s over. The end. No words or goodbyes. But I know, since our last time, something in me died. Like stab into the womb of any woman. I know the next time we’re together we’ll exchange our fire and desire eyes for polite and cold hugs. The air lack, chest tightens, dry mouth. Like that day you took me away and my only desire was to be yours. Your woman. And my uterus would not stop bleeding, as if before the soul, the body already knew that I would leave shattered. But we knew, from the beginning, that this affair would be a failure. Even if, anyway, I’m still strongly connected to you and my body has marks that our love. Now, again, I’m all alone. Lost, dropped, thrown to moths. On my own despair, with torn veins of my heart. Back to the old scars that still bleed and hurts me so deeply.

Amor perecível

As angústias latentes e as náuseas anunciam aquilo que já fora premeditado. De estômago vazio continuo a vomitar. Um sabor amargo, que poderia ser bílis. Mas ao encarar minha imagem no espelho do banheiro sou obrigada a aceitar a verdade. E eu bem sei que só coloco para fora os restos desse amor perecível e degradante. Porque meu corpo, que sente demasiado, bate o pé. Me exige e me culpa por tanto desassossego. E se nega a aceitar esse vício, a ser totalmente aniquilado por essa sensação entorpecente de paixão barata. Porque a mesma mulher que quer insanamente se entregar também deseja ir embora, virar as costas e colocar ordem nesse coração sujo, que agora devaneia entre a urgência do mundo real e o caos da fantasia. O tormento do desejo. A impotência perante o sentimento.