No mundo dos adultos é assim…

Últimas horas de feriado. Taça de vinho tinto. Bronca por telefone: “no mundo dos adultos é assim que funciona”. Essa frase me destrói. Como o prédio que desabou na última madrugada em SP meu corpo desaba e minhas emoções viram apenas destroços. Por algum motivo aquela primeira perda, aos 21 anos, me vem à cabeça. Não existe espaço para sonhos ou fantasias. Talvez todas as contrariedades ainda me despertem medo. Talvez, essa busca por amor seja só uma desculpa pra dizer não. Porque a verdade é que eu ainda não consigo abrir a “porta da casa”. E, cada vez que ainda tento abrir dou logo um jeito de mandar as visitas embora. Ou talvez eu apenas não saiba fazer parte do mundo dos adultos. Talvez eu não seja parte nem disso que eles insistem em chamar de mundo.

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Noite de domingo

Noite de domingo. Em uma última tentativa ela liga. O telefone chama, mas ninguém atende. Ela envia uma mensagem com um poema sobre São Paulo – escrito há mais de 2 anos  – e um trecho de livro como numa última tentativa: “porque teriam encoberto suas idiossincrasias”. Mas todas as idiossincrasias dela eram praticamente escancaradas. Ainda que ele a considerasse uma casa fechada com tetra chave e trinco na porta. É que é assim que a avó dela sempre fez. Desde a tenra infância, na casa da praia, quando a avó disse que o canteiro de jasmim era dela, até 2013, quando a menina ganhou o escapulário numa madrugada de novembro e entendeu que, a partir daquele momento, teria que se virar sozinha.
E ela se acostumou com isso e trancou a si quando pensou que tinha chegado ao final da história. Para tentar se sentir segura. Sem saber que tudo era só o começo. Mas ele sabe. Sabe que ela gasta tanto combustível brigando consigo que não aguenta; que uma hora ela desaba. Em algum ponto dessa história ela se torna doce e quer ser cuidada. Quer ser a menina dele. Mas é exatamente nesse ponto que ele vai embora.

Riscos

Era só mais uma noite, mas os sentimentos brotavam como erupções na pele. O corpo queimava em febre. Sentia dor até os ossos e o gosto de vinho tinto não a deixava esquecer. Tudo era desordem. Ela ainda sentia falta dele. Com ele, ela só queria ser frágil. Ser mulher. A mulher dele. Com ele, ela quis se dar inteira. Quis que ele tomasse posse e não a deixasse tão livre. Mas ele nunca suportou a ideia de se sentir cuidado. De se sentir amado. Porque o amor dela o arrastava para a própria lama. O amor dela incomodava porque fazia com que ele encarasse a verdade e olhasse para dentro de si. E o amor sempre exige riscos. Mesmo quando existem contratos ou promessas. E ele, ainda fingia certezas. Ele abandonava o barco e ela tinha que encarar o mundo sozinha.

Florescer

Sempre soube que esse amor tinha algo de ridículo. Como pode ela arder tanto e ele ser fraco para o sentir? Ela, pura desordem. Desejo até os poros, até as entranhas. Contramão. E ele mão única. Cinto de segurança. Ainda finge se sentir bem com o previsível. Ela quer derreter, se lambuzar. Come de colher, lambe os dedos e repete quando acaba. Ele quer mesa posta; garfo, faca e guardanapo de linho no colo. Ela, dá tudo de si: corpo, pele, alma. Lado A, B e avesso. Ele mantém distância até de si mesmo. Não consegue ir tão fundo. Ela cultiva para florescer. Ele murcha a cada dia.