Cura

Outono costumava ser minha estação favorita.
Devorava o mundo; tão faminta de amor. Ataques compulsivos tentando preencher o vazio da tua falta. Regurgitava sentimentos indigestos na mesma proporção dos frangalhos que me deixava. Didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?/ Honey, you know I did!/ (just) take another little piece of my heart.”
Como restos de comida que se joga a um cachorro sem dono. Dama e Vagabundo. Na nossa história nunca me deixou ser a dama.
Estava nas suas mãos. O pouco que tinha te dava, quase nada me sobrava.
Meu corpo e alma queimavam a todo instante; transtornados pela ignorância do desejo. Mas suas mãos não passavam de membro imobilizado. Como osso quebrado. Tudo era sempre pela metade. O nosso laço era frouxo.
Jazz. Aqui jaz um romance. Notas tocadas como pus saindo de machucado. Um corte lento e profundo. Um amor que acaba como um acorde interrompido. Sem improviso.
Dolorido.
Você tentava tapar os buracos enquanto eu insistia em jogar álcool na ferida aberta. A cada noite meu corpo sujo e dilacerado.
Eu era tempestade; você? garoa.
Tentava abrir as portas; batia, arrombava, fazia escândalo.
Eu era céu aberto, azul de outono; você? neblina.
Eu insistia na gente. Quanto menos você me dava mais eu tentava.
Implorava. Desejava com todos os poros do corpo. Mendigava amor e recebia esmolas.
Capricho.
Doença.
Dependência.

Recaída.
Quarentena.
Abstinência.

Libertação.
Cura.

Parasita

Madrugada. O relógio marca 01:39.
Quarentena.
Tempo em suspensão.
Silêncio.
Mas é o desejo que consome. Atormenta.
Um vírus.
Agente infeccioso.
Ataca e toma conta.
Parasita.
Desassossega o corpo.
Lambuza o íntimo.
Queima até a última vertebra.
Febre.
Delírio.
Convulsão.
Sem cura. Sem remédio e solução.

Em chamas

“Always alone at home or in a crowd;
A single woman out on a private cloud;
Caught in a world few people understand.”


Têm noites que ainda me sinto tão só.
Um mundo tão grande cheio de pessoas tão pequenas.
Minh’alma implora por socorro. Por colo e carinho.
Mas ninguém acolhe.
Uma fortaleza prestes a desmoronar.
Um campo de batalha.
Bandeira branca em chamas.

 

Não se come a carne

“Onde se ganha o pão não se come a carne”.
Mesmo naquele first day ainda tentava manter o foco.
Vestia a máscara.
Encarava com seriedade.
Respirava fundo a cada troca de olhar.
Tentava separar as coisas, mas a vida me esfregava na cara ser uma só. Insistia em mostrar que sou por demais inteira para me doar aos poucos para o que me chama com tanta volúpia.
Desejo que consome qualquer vestígio de razão.
Insiste.
Desassossega.
Aqueles olhos. Barba por fazer. Sorriso de canto de boca.
Imaginação. Fantasia.
Não me contenho.
Pisa no freio quando quero avançar o sinal vermelho.
Ainda recuamos quando chegamos tão perto.