No corredor do supermercado

“Você tem esse jeitinho de artista, mas na verdade você é igual a qualquer outro homem.”

Foi naquele dia que eu me dei conta.
Que eu te amava sim.
Inteira. Ardia.
Sofria.
Me consumia.
Até o último poro do corpo.
Me entregava.
Até o último resquício de sentimento.

Me diz “didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?”

Mas você se esgueirava. Escorregava toda vez que chegávamos tão perto.

E eu por demais mulher.

Enquanto você carregava o peso de um menino abandonado.

Foi naquele dia que eu me dei conta.
No corredor do supermercado.
Que aquilo não era mais amor.
Era a cura.

Regurgitar

Recorro a taças de vinho tinto na madrugada para diluir a mim mesma. Goles compulsivos buscando satisfazer minh’alma sedenta.
Alma sedenta.
Carne faminta.
Cada gole um golpe de azia.
Uma vã tentativa de digerir sentimentos.
Náuseas.
O estômago grita.
O útero chora.
Dedo na garganta.
Regurgitava.
Restos.
Seus restos.
Impregnado em mim.
O desejo.
Ardor constante.
03:17.
Continuo a queimar.
É amor ou essa ânsia eterna de amar?

Cura

Outono costumava ser minha estação favorita.
Devorava o mundo; tão faminta de amor. Ataques compulsivos tentando preencher o vazio da tua falta. Regurgitava sentimentos indigestos na mesma proporção dos frangalhos que me deixava. Didn’t I give you nearly everything that a woman possibly can?/ Honey, you know I did!/ (just) take another little piece of my heart.”
Como restos de comida que se joga a um cachorro sem dono. Dama e Vagabundo. Na nossa história nunca me deixou ser a dama.
Estava nas suas mãos. O pouco que tinha te dava, quase nada me sobrava.
Meu corpo e alma queimavam a todo instante; transtornados pela ignorância do desejo. Mas suas mãos não passavam de membro imobilizado. Como osso quebrado. Tudo era sempre pela metade. O nosso laço era frouxo.
Jazz. Aqui jaz um romance. Notas tocadas como pus saindo de machucado. Um corte lento e profundo. Um amor que acaba como um acorde interrompido. Sem improviso.
Dolorido.
Você tentava tapar os buracos enquanto eu insistia em jogar álcool na ferida aberta. A cada noite meu corpo sujo e dilacerado.
Eu era tempestade; você? garoa.
Tentava abrir as portas; batia, arrombava, fazia escândalo.
Eu era céu aberto, azul de outono; você? neblina.
Eu insistia na gente. Quanto menos você me dava mais eu tentava.
Implorava. Desejava com todos os poros do corpo. Mendigava amor e recebia esmolas.
Capricho.
Doença.
Dependência.

Recaída.
Quarentena.
Abstinência.

Libertação.
Cura.

Parasita

Madrugada. O relógio marca 01:39.
Quarentena.
Tempo em suspensão.
Silêncio.
Mas é o desejo que consome. Atormenta.
Um vírus.
Agente infeccioso.
Ataca e toma conta.
Parasita.
Desassossega o corpo.
Lambuza o íntimo.
Queima até a última vertebra.
Febre.
Delírio.
Convulsão.
Sem cura. Sem remédio e solução.