Bonita

Os fios de cabelo cheios de luzes cobrem parte das costas, mas também da alma. Não deixam transparecer certas fragilidades por entre as fendas. O corpo bem delineado é alvo frequente de desejos. Eles me dizem linda, mas no fim sempre me deixam sozinha. Todos eles. Me largam numa esquina qualquer, me apontam o dedo. Me jogam na cara cada fraqueza e me denunciam todas as cicatrizes. Cada uma dessas dores é como uma tatuagem onde a pele é mais fina. Onde a alma mais dói. Me jogo no chão do quarto e enquanto tomo taças de vinho tinto leio Ana Cristina César: “Estou bonita que é um desperdício”. Porque aqui a beleza ainda é castigo pra carne de mulher. Enquanto eles comem cru porque tem medo do amor mais difícil.