Amor perecível

As angústias latentes e as náuseas anunciam aquilo que já fora premeditado. De estômago vazio continuo a vomitar. Um sabor amargo, que poderia ser bílis. Mas ao encarar minha imagem no espelho do banheiro sou obrigada a aceitar a verdade. E eu bem sei que só coloco para fora os restos desse amor perecível e degradante. Porque meu corpo, que sente demasiado, bate o pé. Me exige e me culpa por tanto desassossego. E se nega a aceitar esse vício, a ser totalmente aniquilado por essa sensação entorpecente de paixão barata. Porque a mesma mulher que quer insanamente se entregar também deseja ir embora, virar as costas e colocar ordem nesse coração sujo, que agora devaneia entre a urgência do mundo real e o caos da fantasia. O tormento do desejo. A impotência perante o sentimento.

Juntos III

Essa paixão que explode em cada poro da pele. O cheiro e o toque das mãos impregnado nas curvas do corpo. Esse desejo que consome a alma, devora as entranhas. Toma conta. Deixa tudo sem controle. E tudo isso por esse amor ridículo. Sem nenhuma decência ou futuro. Amor com prazo de validade. E ainda assim é você que eu quero. E nessa louca insensatez eu confesso: eu tento escapar, mas é com você que eu me deparo quando a noite vem. Porque é o único pelo qual meu corpo clama e é pra você que minha alma está entregue.

Descompasso II

E eu ainda me pego pensando naquele homem e, estranhamente, não me importo em estar tão vulnerável. Porque o desejo com instinto cego e quando estamos juntos nada mais importa. E eles não entendem, porque ainda sentem tão pouco perto desse nosso descontrole. Porque entre a gente é assim: tudo é descompasso. Beleza e encantamento. Desrazão. A carne insensata que pede mais. O corpo que deixa de ser dono de si e a vontade única de perder-me em seus braços, enquanto fundimos nossos corpos e você deixa marcas profundas na minha pele.

Lugar qualquer

Foi numa quinta-feira quando eu me levantei daquela mesa de bar com os olhos marejados e não quis mais olhar pra trás. Não quis mais o seu olhar. Naquele dia eu tive certeza que nesse mundo eu não tenho lugar. Sem rumo pelas ruas da cidade. Como uma puta ou um vira-lata sem dono. Querendo fugir, querendo me entregar pro primeiro que passasse pra me limpar. Pra me livrar dessa paixão barata. Pra expurgar esse amor imundo. Mas meu corpo é autônomo, não me permite escolhas e qualquer entrega seria vã. Qualquer homem seria como ir de volta pra você. Qualquer beijo que não fosse o seu me sufocaria. Qualquer toque que não o das suas mãos me deixaria enjoada. Eu só queria me esconder, me deixar esquecer. Quando dei por mim já estava dentro de um táxi a caminho da rodoviária. Indo pra onde não pudesse voltar. Foi sem pensar que entrei naquele ônibus só pra passar a noite em claro na estrada e ver o sol nascer em outro lugar. Até agora eu ainda não sei se queria mesmo era me livrar de mim ou de você.