Desatino

Que espécie de amor é esse
que sem consentimento invade e fascina?
Que desassossega o corpo, que desespera e desatina?
Que espécie de saudade é essa
que corrói até a alma?
Que perturba onde nem se podia alcançar, que sufoca até não mais suportar?
Que espécie de desejo é esse
sem vergonha, sem controle, sem juízo?
Que ouriça os poros, que lambuza o íntimo, que quer possuir e ser possuído?
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Cacos II

Porque quando eu estava ao seu lado o mundo poderia explodir que eu não me importaria. Porque quando estávamos juntos, de alguma maneira, até as coisas mais sem sentido pareciam tão certas. Mas assim, de um dia pro outro, quem explodiu fomos nós. Foi o amor que eu sentia que foi quebrado, dilacerado. Enquanto eu ainda tentava juntar os pedacinhos você jogava tudo fora.
“Meu coração ainda corre ao teu encontro com demasiada violência” – escreve aquele filósofo. Se eu pudesse ainda correria pra você. Mas, mais uma vez, a única coisa que eu faço é atender ao seu desejo: você decidiu que tinha que acabar. E você nega, mas você sabe.  As incompatibilidades nunca foram o problema. O problema foi a sua escolha. De não nos deixar acontecer. Você que um dia me pediu para tentar. Para viver a nossa história até as últimas consequências, de repente escolheu não vivê-la.

04:19

Outra madrugada. Deitada em posição fetal. Fecho os olhos mas o sono não vem. Meu único sonho é retornar ao útero. A saudade corrói como úlcera hemorrágica. Como um eterno regurgitar de sentimentos. Sinto tua falta como se tivesse me arrancado um órgão vital. Pareço bem, mas há falta em tudo que eu vivo. Todo ar não é o bastante para me fazer respirar. Toda multidão é solidão. Todos os homens do mundo ainda seriam insuficientes. Viver parece um pesadelo, como se todos os dias fossem 04:19 daquela quarta-feira, quando você me mandou embora, “me disse pra ser feliz e passar bem” como na canção do Chico.

 

Tua

É que não entendo como pode me deixar sozinha por tanto tempo. Não vê o quanto tua falta ainda dói, machuca e me faz sangrar? E da última vez eu te pedi para não me fazer sofrer mais. Mas você faz pior. Me deixa sozinha, entregue à esta solidão inexorável quando eu mais preciso de tua presença. Porque sabe que por mais que eu queira me livrar desse amor – e eu ainda me atrevo a chamar “isto” de amor? – não vou me entregar para outro. Porque ser de outro seria ser ainda mais tua. Mas não vê que, mesmo ainda sendo o único dono do meu corpo, do meu desejo, minh’alma clama por liberdade? Por entrega e amor de verdade? Alguma coisa em mim me exige muito mais do que as migalhas que você se arrisca a me dar.