Livro

Você pra mim é como livro de cabeceira
Te pego
Te leio
Te viro do avesso
Te risco e rabisco
Te aperto contra o peito
Te reviro as páginas
Te devoro com os olhos
Te aliso com os dedos
Te levo pra cama
E durmo contigo

Te largo num canto
Te guardo na estante
Entre palavras e pausas
Pontos e vírgulas
Nesse vai e vem incessante
Até o último instante

Eles IV

Não, eu não espero que eles entendam se tantas vezes nem eu mesma consigo compreender. Mas é que eu sinto que não pertenço ao mesmo lugar que eles. Porque eu sempre quero além. Minha alma é desassossegada. Acho que tenho algo como inquietação crônica. A vida em ritmo lento não me cabe, a mediocridade me mata, o lugar comum me devora. Não consigo aceitar os limites só porque eles dizem que tem que ser assim. Sei que algumas coisas eu nunca vou poder mudar mas eu preciso tentar. Se pareço arisca é que a minha vontade de fazer parte é forte demais e ainda assim nada do que eles dizem me chama atenção. Nada me segura. Nada me queima. Como posso existir em um mundo do qual às vezes nem pareço fazer parte?

Caos

Eu sinto tanto, sinto o tempo todo. E de tanto sentir de repente não consigo mais escrever. Sou puxada por todos os lados, por diferentes sensações. Minhas ideias não se organizam e eu sinto como se não estivesse viva. Quanto mais eu penso mais me desordeno. Sem a escrita fico perdida. Navio sem bússola. Não tenho mais Norte, não tenho mais caminho. Tudo é caos novamente.
Mas é no caos que volto a ser. Na mais absoluta solidão. Um corpo sozinho, uma alma viva. Uma alma que grita. No caos e na escrita.
É a desordem que me ordena, é o sentimento que me faz plena.