Indigestão

Se ele ao menos soubesse o quanto relutei para escrever hoje. Desde aquele adeus, vivo no meio de aflições e angústias. Cheguei a um estado febril. Passei semanas anestesiada, tentando sobreviver com enjoos, como se algo não tivesse sido ainda digerido. E eu precisei escrever aqui. Como enfiar o dedo na garganta para vomitar depois de um porre. Mas o porre aqui é emocional. Visceral. Porque escrever “a gente” dói. Dói porque é como materializar algo. Algo que na minha cabeça ainda é bonito demais para acabar assim. Intenso demais para ser só isso. E escrever pede responsabilidade. Responsabilidade pelo não que eu não quero dizer. Pelo não que eu preciso quando o que eu mais queria era dizer sim. Quando queria apenas esquecer o mundo e viver “nós”. Viver talvez essas entrelinhas, entre nós, entre esses nós. Porque terminar uma história é quase fácil. Mas terminar no papel é um martírio. Mas é só assim que eu sei. É assim que eu faço. É assim que eu vivo. As coisas só começam ou terminam mesmo na ponta da caneta. E não pense que é fácil. Chego a sentir dor física. E quando acontece é quase insignificante perto do que sinto internamente. Calafrios e náuseas. Como se cada palavra saísse cortando, me rasgando a pele sem anestesia e penetrando no mais fundo, naquilo que eu tenho de mais íntimo. Naquele ponto do inexplicável. Aquele que só é possível chegar pela força da escrita.

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Juntos

E agora estamos juntos. Ele, com as mãos macias e quentes e os olhos famintos. E eu, que só sei mesmo fazer amor com as letras. Ele, que sabe exatamente como agir, enquanto eu fico meio desconsertada. O meu peito, que aperta e pede mais. Ele, que nem sei se se importa muito. É a minha cabeça que não sossega enquanto pra ele tudo é “normal”. Eu, que rabisco versos sobre amor mas ainda sou ingênua e ele, que sabe como o mundo realmente funciona. Eu, que vivo no meio de angústias e conflitos e que, nesse momento, vejo que não sou mais do que aquela mulher da rua. Vadia, com corpo vazio, sem dono, sem amarras, sem chão. Mas é ele. Ele, que nem me conhece tão bem, e ainda assim, quase consegue me fazer perder a razão. É afago nos cabelos e beijo no pescoço. É tatuagem, vontade e pele. Corpo quente. Barba roçando, pele arrepiada e querer mais. É desejo que conquista mas ainda não sacia.

Sem ar

É que os olhos dele, quando me olham, são como se me despissem, como se arrancassem de mim qualquer proteção. Como se, apenas com o olhar, ele rasgasse minha roupa e as minhas defesas. E, de repente, ele me toma como refém. Sequestra os meus sentimentos. Não sou dona de mim. Não me controlo. Porque meu desejo agora é dele e meu corpo só faz responder aos estímulos. Porque eu o quis desde o primeiro momento. Mas eu também não queria. Eu evitei. Evitei porque sabia que não podia suportar. Porque meu corpo sossega colado no dele. Porque os meus lábios abrem-se junto aos dele. Porque não o quero, mas necessito. Preciso pra não sufocar. Porque longe dele o ar fica rarefeito e perto dele eu fico sem ar.

Mais

Entra noite, sai noite. Final de semana. Aquele porre de jazz, livros marcados em cores neon, páginas rabiscadas e tarja preta. É um não sei de onde e não sei porque. Busco respostas e encontro mais perguntas. É ele, que invade meus pensamentos, mas nem se lembra mais de mim. Sou eu, que busco mais. É inquietação, vontade de estar em outro lugar. É satisfação inquieta. Quase passa por rebeldia pra quem não entende, mas a verdade é que tenta se adequar por ser puramente inconformada. É amor pela vida. É amor pelas pessoas. Mas também é acreditar no que vai além. É ser inconformada apenas por querer ser melhor. Mais verdade. Mais amor, mais vida.