Grito

Eu queria. Uma palavra, um texto. Um soneto de amor, uma alegoria. Mas não sou poeta. Não sei de rimas, nem de métricas. Eu só escrevo pelo amor ou pelo arrebatamento da dor.
Eu só sei que essas palavras que me surgem eu não sei bem de onde vem. Talvez do coração. Só sei que elas me atravessam como enxurrada, incrustadas num violento fluxo sanguíneo. Como se todo meu corpo passasse a ser possuído e a pele fosse cortada pela força da letra que vem à superfície. Porque escrevendo eu me confesso abertamente incompatível a eles. A verdade é que não sei o que escrevo. Não é crônica, nem poema. Acho que nada mais é do que um grito.

Faz de conta

Eu, que vivo por sentimentos da ordem do inefável apenas existo como estrangeira nesse mundo. Nesse mundo de ilusão. De fantasias e de faz de conta. Num mundo onde eles se dizem felizes mas tomam cada vez mais Rivotril.  Num mundo de olhos secos e corações encharcados. Num mundo onde se tem obrigação de parecer bem mas só vive mesmo tentando disfarçar as angústias da alma. Num mundo que condena sentimentos verdadeiros e onde qualquer intensidade é chamada loucura. Num mundo que diz venerar Deus mas põe a fé em questão ao menor sinal de obstáculo. Num mundo onde se diz amar, mas mal sabe o que é amor.

Farsa

Eu me sinto como ré diante do juri popular. E tenho uma vontade profunda de confessar meus crimes e me deixar ser condenada. Porque a verdade é que não passo de uma farsa. Eu, que busco tanto amor, reconheço que ainda não suporto tal sentimento por tanto tempo. Eu, que agora não me importo em ser condenada, só quero ser livre. Vivo nesse eterno paradoxo. Que me apontem o dedo, que me joguem na rua. Mas que não me prendam. E eu afirmo: sou mesmo errada. Sou uma farsa, uma desordenada. Só na desordem e no caos meus sentimentos existem. Porque o que sinto é da ordem do incompreensível, do intraduzível. E agora, sem saída, eu me calo e me entrego ao julgamento deles; mas não sem antes confessar nas entrelinhas: como vou me entregar se ainda é a mim que eu procuro?