Just over

Sentada no chão frio. Estática. Anestesiada. Não grito, não esperneio, não imploro. Mal consigo responder. Não faço nenhum esforço para levantar, para segurar ou ao menos enxugar as lágrimas que escorrem compulsivamente enquanto releio mais uma vez aquelas duras palavras que você me enviou. Nunca imaginei que pudesse me dizer palavras tão frias e sem esperança. E nunca antes um homem havia me deixado assim. Não dessa maneira, como se fosse tão fácil virar as costas e seguir seu caminho. Enquanto eu fico aqui. Sozinha. Ainda sem saber o que fazer. Como uma coisa qualquer que se joga fora depois que cansou de usar.

Feridas

Reviro as gavetas e encontro. Aquela calcinha. Puxo sem dó e com violência rasgo um por um os fios da renda como se esse ato pudesse também arrancar do meu coração a tua presença que insiste em permanecer. Porque cansei de dormir e acordar dia após dia suportando essa dor ridícula como a de feridas profundas e infeccionadas, cheias de secreções e pus à flor da pele.
É que você não sabe, mas enquanto jorram essas palavras sinto cada dor, cada fisgada emocional como quem arranca espinho por espinho e deixa a pele em carne viva. O peito aperta a cada respiração e o estômago sangra e dói tanto quanto a alma. A cabeça revira e as veias dilatam cada vez que tento entender porque e ainda me questiono e suplico a não sei quem por uma resposta para algo que não consigo deixar pra lá como eles se conformaram a fazer. É que a minha maneira de amar é deturpada para os dias atuais. A mediocridade não tem espaço na minha vida. Eu ainda preciso de sentir mais do que simplesmente ligar o piloto automático e deixar acontecer.

Cafona

04:28 de terça-feira. As insônias se tornaram agora um martírio para quem passa noites inteiras sozinha, de um lado para outro da cama. Pele arrepiada, calafrios e a vontade única do teu abraço, do teu corpo aconchegado no meu. De estar enroscada nos braços que eu achei que nunca me largariam e hoje nem mais me abraçam. Das mãos que não mais me tocam. Daquele beijo que a minha boca nunca mais experimentou.
Passo dias anestesiada, em uma aparente calma que sei que não é minha. Logo eu, que ainda teimo em ser tão escancarada com o sentir. Que só sei fazer do amor um escândalo. Eu, que me coloquei inteira para você. E que expus meu coração sem nenhum pudor. E agora você me ataca tão ferozmente com o teu silêncio. Me atinge em cheio o peito aberto, minha alma já tão machucada.
“And now that you took that part/ that used to be my heart/ All of me, why not take all of me?/ Can’t you see I’m a mess without you?”, canta Sinatra ao fundo, zombando do meu desespero cafona – afinal para que se entregar tanto em tempos modernos? – enquanto eu entendo que talvez o amor não me seja possível. E que a mim só cabem mesmo as cicatrizes e a poesia.