Cacos II

Porque quando eu estava ao seu lado o mundo poderia explodir que eu não me importaria. Porque quando estávamos juntos, de alguma maneira, até as coisas mais sem sentido pareciam tão certas. Mas assim, de um dia pro outro, quem explodiu fomos nós. Foi o amor que eu sentia que foi quebrado, dilacerado. Enquanto eu ainda tentava juntar os pedacinhos você jogava tudo fora.
“Meu coração ainda corre ao teu encontro com demasiada violência” – escreve aquele filósofo. Se eu pudesse ainda correria pra você. Mas, mais uma vez, a única coisa que eu faço é atender ao seu desejo: você decidiu que tinha que acabar. E você nega, mas você sabe.  As incompatibilidades nunca foram o problema. O problema foi a sua escolha. De não nos deixar acontecer. Você que um dia me pediu para tentar. Para viver a nossa história até as últimas consequências, de repente escolheu não vivê-la.

Cacos

Madrugada e um certo desespero de não escrever mais. Livros espalhados, caneta no punho e caderno de rascunhos parecem não significar nada mais além de uma visão turva. Abro uma garrafa de vinho e forço o saca-rolhas como quem ainda detem um fio de esperança. Afinal, quem precisa de uma overdose de barbitúricos quando a angústia mata lenta e dolorosamente a alma de quem sente demais? A humanidade me sufoca. O mundo me engole. Do fast food aos amores instantâneos. Just in time. É só deletar, jogar fora e dar as costas. O tempo da delicadeza já se foi. Não tenho espaço. Não tenho socorro nem solução. Sou só. Inteira minha e ainda um pouco dele. Mulher aos pedaços. Cacos de amor dilacerado.