Sem ar

É que os olhos dele, quando me olham, são como se me despissem, como se arrancassem de mim qualquer proteção. Como se, apenas com o olhar, ele rasgasse minha roupa e as minhas defesas. E, de repente, ele me toma como refém. Sequestra os meus sentimentos. Não sou dona de mim. Não me controlo. Porque meu desejo agora é dele e meu corpo só faz responder aos estímulos. Porque eu o quis desde o primeiro momento. Mas eu também não queria. Eu evitei. Evitei porque sabia que não podia suportar. Porque meu corpo sossega colado no dele. Porque os meus lábios abrem-se junto aos dele. Porque não o quero, mas necessito. Preciso pra não sufocar. Porque longe dele o ar fica rarefeito e perto dele eu fico sem ar.

Mais

Entra noite, sai noite. Final de semana. Aquele porre de jazz, livros marcados em cores neon, páginas rabiscadas e tarja preta. É um não sei de onde e não sei porque. Busco respostas e encontro mais perguntas. É ele, que invade meus pensamentos, mas nem se lembra mais de mim. Sou eu, que busco mais. É inquietação, vontade de estar em outro lugar. É satisfação inquieta. Quase passa por rebeldia pra quem não entende, mas a verdade é que tenta se adequar por ser puramente inconformada. É amor pela vida. É amor pelas pessoas. Mas também é acreditar no que vai além. É ser inconformada apenas por querer ser melhor. Mais verdade. Mais amor, mais vida.

Xeque-Mate

Ele vai embora quando todos os outros me pedem para ficar. Ele me deixa sozinha no momento que eu mais o desejo. Ele joga comigo de um jeito que sempre perco. Usa e abusa. Táticas, estratégias, armadilhas. Logo eu, que me acostumei a ganhar,  agora só preciso mesmo de um empate. Porque estar com ele é como um vício e assim eu aposto todas as minhas fichas nesse jogo sem pé nem cabeça. Esse nosso jogo, onde as peças se invertem e o peão dá xeque-mate na rainha. Sem pedir nada em troca. Sem hesitar, sem pestanejar. Essa rainha que não se importa mais com seu reino e que agora tem apenas uma certeza: não pode mais resistir.

Confesso

Eu, que vivo apenas pelo desejo de amar. Eu, que busco amor em cada mínima parte da vida. Eu, que desejo insanamente me entregar tenho agora uma única vontade: me confessar. A única verdade sobre mim. Talvez a única coisa real nesse mundo. Mas a verdade mais dura, a mais difícil de aceitar e que eu te digo agora é que não consigo ser de ninguém. Eu quero mas eu não consigo. Não posso. Eu, que busco desesperadamente amor, na verdade não sei amar. Porque me fiz mulher sozinha. E só depois que ele foi embora eu pude realmente me reconhecer mulher. E nessa busca incansável me aprofundei tanto que a única saída foi me entregar a mim mesma.

Talvez porque tenho verdadeiro horror a essas relações fáceis e de aparência, às entregas rasas e covardes. Talvez porque eles se assustem tanto com a minha verdade. Talvez simplesmente porque eu ainda busco além. Talvez porque amor, na forma deles, ainda seja pouco para tudo que eu desejo.