Na madrugada…

Já é domingo. O único dia da semana no qual se torna impossível fugir do amor. Talvez por isso meu inconsciente ainda teime em passar as madrugadas em claro. Pro dia começar mais tarde e durar menos. Penso em alugar um carro ou ir direto comprar uma passagem de ida no primeiro guichê da rodoviária pra forjar uma partida assim que o sol nascer. Uma cena qualquer pra chamar tua atenção. Qualquer outro tentaria me impedir de ir embora e me imploraria pra ficar. Desisto da ideia porque pela primeira vez não quero ir embora se não puder ir contigo. Ainda que aqui nada me segure talvez lá seja pior. Abro outra garrafa de vinho. Tento recorrer ao antigo clichê dos boêmios e românticos: “love is a dog from hell”, já dizia aquele velho safado. Como se eu pudesse ser tão óbvia e previsível. Tua falta só fica mais evidente ainda que eu esteja decidida a não tentar mais.

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04:19

Outra madrugada. Deitada em posição fetal. Fecho os olhos mas o sono não vem. Meu único sonho é retornar ao útero. A saudade corrói como úlcera hemorrágica. Como um eterno regurgitar de sentimentos. Sinto tua falta como se tivesse me arrancado um órgão vital. Pareço bem, mas há falta em tudo que eu vivo. Todo ar não é o bastante para me fazer respirar. Toda multidão é solidão. Todos os homens do mundo ainda seriam insuficientes. Viver parece um pesadelo, como se todos os dias fossem 04:19 daquela quarta-feira, quando você me mandou embora, “me disse pra ser feliz e passar bem” como na canção do Chico.

 

Ausência

Mais uma noite. Sozinha. Acordo ansiosa. O corpo inteiro molhado de suor. E por afrontamento do desejo é por ele que minha pele clama. E as palavras que ele me dizia ainda são as únicas que me fazem falta. Me recordo que já faz mais de um ano desde aquele beijo. Sem palavras, só olhares. Vontade pura e simples. Quando nenhuma promessa de futuro me fazia falta…
Eu sei. Sei que esse amor não era lá grandes coisas. Sempre tive certeza que nosso prazo de validade era curto. Mas sei também que o meio amor que eu tinha valia mais para mim do que o melhor de amor de qualquer homem.
E eu posso dizer que era feliz com fragmentos dele. Até que cansei de brincar de puta.
É que eu até tento, mas chega uma hora que não sei mais ser pela metade. Porque para um amor inteiro metade não satisfaz. Ainda que seja a melhor parte. A mais saborosa. Chega um momento que, de tão faminta, acabo morrendo de fome.

Cafona

04:28 de terça-feira. As insônias se tornaram agora um martírio para quem passa noites inteiras sozinha, de um lado para outro da cama. Pele arrepiada, calafrios e a vontade única do teu abraço, do teu corpo aconchegado no meu. De estar enroscada nos braços que eu achei que nunca me largariam e hoje nem mais me abraçam. Das mãos que não mais me tocam. Daquele beijo que a minha boca nunca mais experimentou.
Passo dias anestesiada, em uma aparente calma que sei que não é minha. Logo eu, que ainda teimo em ser tão escancarada com o sentir. Que só sei fazer do amor um escândalo. Eu, que me coloquei inteira para você. E que expus meu coração sem nenhum pudor. E agora você me ataca tão ferozmente com o teu silêncio. Me atinge em cheio o peito aberto, minha alma já tão machucada.
“And now that you took that part/ that used to be my heart/ All of me, why not take all of me?/ Can’t you see I’m a mess without you?”, canta Sinatra ao fundo, zombando do meu desespero cafona – afinal para que se entregar tanto em tempos modernos? – enquanto eu entendo que talvez o amor não me seja possível. E que a mim só cabem mesmo as cicatrizes e a poesia.