Em carne viva

Coração em carne viva. Não suporto mais essa força que me toma tal qual dinamite que não explode. Respiração ofegante e nervos à flor da pele. Me perdoem as heroínas, mas necessito da totalidade do “sexo frágil”. Quero só ser mulher.
Cansei de tantas máscaras. Prefiro dilacerar novamente o coração a amar com medida. Prefiro ser despedaçada a me deparar com o meio termo. Só aceito os extremos. Não tenho mais medo. Aceito cada ferida aberta, mas ainda imploro por menos beleza e mais alma. Menos ilusão e mais verdades rasgadas. Menos mostrar e mais sentir. Quero ímpeto. Instinto. Enquanto eu anseio por mais eles ainda estão pisando no freio. Não posso mais conviver com o desinteresse e automatismo. Com a frieza e as superfícies. Quero ir fundo. Tão fundo. Afogar. Viver. Transbordar.
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Quebra-cabeças

Todas as inquietações me vem à tona hoje como quem arranca cascas de machucados com as unhas e deixa sangrar uma ferida que nunca cicatriza. Viver nesta cidade é um martírio crônico. As ruas não me cabem. As pessoas me olham mas não me enxergam. Só veem um padrão, como embalagens cuidadosamente dispostas na prateleira do supermercado. Ninguém se olha, ninguém se vê, ninguém se sente de verdade. Eles nem sabem o que é sentir como eu sinto. E nunca saberão. Porque só suportam a superfície: o raso, o que é por demais previsível e confortável. Enquanto em mim aquela inadequação teima em aparecer mais uma vez, ainda que eu tente expurgá-la como veneno. Algo sempre está fora de lugar. Mas a peça errada sou eu. O Chico disse que na reencarnação ninguém erra de endereço, mas sei que estou sobrando no quebra-cabeças desta cidade. Eu não me encaixo nela e ela não se encaixa em mim.

Domingo

Domingo. Lá fora gritos de torcedores e música alta. Pareço mesmo viver à parte porque alheia a todos os estímulos, só a frase daquele filme sobre Emily Dickinson que assisti há 2 semanas, ainda insiste em martelar na minha cabeça, como se estivesse introjetada no corpo: “nós, que nascemos privados de um tipo específico de amor, lidamos melhor com a falta”. Todas as feridas e frustrações me aparecem como num turbilhão. As lágrimas de hoje borram a maquiagem de ontem. Você não me disse nada. Nem me deu a mão pra me ajudar a cuidar de mim. E ainda assim eu não te peço nada. Agora eu só quero ir embora.

Work me, lord

Daqueles dias nos quais a vida mais parece uma travessia por labirintos de arame farpado do qual é impossível sair ilesa.
O mundo parece sarcástico. Esmaga sem piedade a alma de quem nasceu com a sensibilidade exacerbada e nos perfura o coração a cada instante. Como hemorragia interna que só se descobre quando a morte já é mais viva.
Por aqui um eterno vazio. Um abismo obscuro que até eu mesma tenho medo de adentrar demais porque sei que nunca será preenchido. Uma dor sem remédio, uma ferida que só faz aprofundar e jamais cicatrizará. Uma fome que não cessa, um corpo que parece constantemente ardendo em febre. Um ciclo sem fim.
Work me, lord“, canta Janis em tom rasgado enquanto todos os dias eu ainda insisto : “Oh, Deus, me faça olhar para mim com os mesmos olhos que você me vê”.