Entrega

Outro dia descobri que não sou gente. Sou antes bicho que não compreende mas segue seus instintos para sobreviver.
Renato já explicava para Cássia*: “Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher.”
Quem sou eu para discordar?
Sou bicho e sou mulher. Mulher que não cabe em si e precisa se entregar. A minha vontade era falar para ele: “Me toma sem direito a devolução”.
Mas ele ainda não veio e eu só me entrego para mim mesma.
Vivo comigo, vivo por mim, vivo em mim.
Hoje vivo pela escrita. Só pela escrita posso ser outra e eu mesma. Só pela escrita essa entrega pode ser completa.
Completa, verdadeira e visceral.
Só pela escrita posso me libertar de mim.
*

Ainda

E aí quero ler todos os livros da minha estante
Usar um salto alto
E experimentar um novo batom vermelho
E me sinto boba e fútil
Nesse caminho incerto
Sigo meu destino desconcerto
Mas pareço tão pequena
Perto de tudo que almejo
O mundo me chama
A vida me exige
E ainda me sinto presa
Por vezes menina num corpo de mulher
Numa cabeça de mulher
Num gozo de mulher