Cafona

04:28 de terça-feira. As insônias se tornaram agora um martírio para quem passa noites inteiras sozinha, de um lado para outro da cama. Pele arrepiada, calafrios e a vontade única do teu abraço, do teu corpo aconchegado no meu. De estar enroscada nos braços que eu achei que nunca me largariam e hoje nem mais me abraçam. Das mãos que não mais me tocam. Daquele beijo que a minha boca nunca mais experimentou.
Passo dias anestesiada, em uma aparente calma que sei que não é minha. Logo eu, que ainda teimo em ser tão escancarada com o sentir. Que só sei fazer do amor um escândalo. Eu, que me coloquei inteira para você. E que expus meu coração sem nenhum pudor. E agora você me ataca tão ferozmente com o teu silêncio. Me atinge em cheio o peito aberto, minha alma já tão machucada.
“And now that you took that part/ that used to be my heart/ All of me, why not take all of me?/ Can’t you see I’m a mess without you?”, canta Sinatra ao fundo, zombando do meu desespero cafona – afinal para que se entregar tanto em tempos modernos? – enquanto eu entendo que talvez o amor não me seja possível. E que a mim só cabem mesmo as cicatrizes e a poesia.

Cacos

Madrugada e um certo desespero de não escrever mais. Livros espalhados, caneta no punho e caderno de rascunhos parecem não significar nada mais além de uma visão turva. Abro uma garrafa de vinho e forço o saca-rolhas como quem ainda detem um fio de esperança. Afinal, quem precisa de uma overdose de barbitúricos quando a angústia mata lenta e dolorosamente a alma de quem sente demais? A humanidade me sufoca. O mundo me engole. Do fast food aos amores instantâneos. Just in time. É só deletar, jogar fora e dar as costas. O tempo da delicadeza já se foi. Não tenho espaço. Não tenho socorro nem solução. Sou só. Inteira minha e ainda um pouco dele. Mulher aos pedaços. Cacos de amor dilacerado.

 

Noite quente

Tão quente que me atirei debaixo do chuveiro gelado às 3 da manhã. Sozinha, luzes apagadas e somente o pequeno abajur ao lado da cama permaneceu aceso. Pele nua e arrepiada. Apenas os cabelos soltos e desgrenhados cobriam parte das costas. Creme de baunilha. Calcinha de renda e camiseta de algodão. O corpo queima e o desejo perdura. Eu ainda o espero todas as noites porque tenho o nome dele incrustado em cada curva do meu corpo. E que se a noite é por demais quente, se a vontade desse amor é urgente, o coração dele ainda é displicente.