Descompasso II

E eu ainda me pego pensando naquele homem e, estranhamente, não me importo em estar tão vulnerável. Porque o desejo com instinto cego e quando estamos juntos nada mais importa. E eles não entendem, porque ainda sentem tão pouco perto desse nosso descontrole. Porque entre a gente é assim: tudo é descompasso. Beleza e encantamento. Desrazão. A carne insensata que pede mais. O corpo que deixa de ser dono de si e a vontade única de perder-me em seus braços, enquanto fundimos nossos corpos e você deixa marcas profundas na minha pele.

Juntos II

Porque adoro quando cola teus lábios sob os meus com fúria lasciva e me cala a boca. E me faz esquecer neuroses e bobagens. Quando ignora os meus caprichos e me deixa completamente vulnerável. Porque independente do que esse amor seja, o meu desejo não mais me pertence. Agora tudo é seu. E eu, que nunca quis ser objeto de posse de alguém agora me entrego de bom grado. De bandeja e bem servida. E quando estamos juntos a única coisa que me importa é a vontade e o calor desse homem. E quanto mais me tem em seus braços mais eu quero me dar. Mais eu desejo que me tenha. Inteira. Porque esse anseio é cada vez mais intenso e pungente. Um amor cada vez mais entregue. Frágil, profundo, devasso. Perverso. Humano.

Nude

É que para entrar em meus segredos não basta que eu tire lentamente cada peça de roupa olhando nos olhos dele porque minha nudez não está no corpo. Vem da alma. Das palavras traçadas em versos livres. Porque estar nua em corpo é quase espontâneo e despir-se da “moral e dos bons costumes” ainda é mais fácil do que livrar-se de armaduras internas. De defesas preservadas por longos anos e de neuroses castigadas pela dureza da vida. Mas sé é para ser mulher que seja assim: inteira, verdadeira. Que minha feminilidade seja vivida até o limite. Entregue ao meu desejo e tomada pelo fervor do homem que escolhi. E ainda assim, se Nelson Rodrigues dizia que “toda nudez será castigada” meu castigo vem do sentir demais. De corpo e alma. E de tudo mais que vier.

Nua

Eu chorei. Chorei quando ele foi embora daquele jeito covarde. Sem explicações, sem adeus. E, de repente foi ser feliz com outra pessoa. E eu apenas desejei que ele fosse feliz. E chorei porque nós não fazíamos mais sentido. Aliás, nem sei se algum dia fizemos ou se o amor dele era uma mera vaidade. Eu não chorei lágrimas, mas agora choro palavras. Porque escrevendo eu arranco os sentimentos mais intensos e profundos. Porque amor na minha vida eu nunca tive. E nunca fui o amor de alguém. Nunca passei de desejos, vaidades, caprichos. E nunca eles puderam ser mais do que isso pra mim também. Mas amor dentro de mim existe. Minha essência é puro amor. E é tudo que minha alma busca. E de tanto amor nunca pude amar. Porque eles não querem nada comigo. Quando eu desnudo o corpo eles o desejam. Quando desnudo a alma eles simplesmente vão embora como se dentro de mim existisse algum tipo de monstro. Como se se entregar inteira fosse algum tipo de crime.