No tapete atrás da porta

Ainda me recordo daquelas noites nas quais eu costumava me jogar no chão do quarto ouvindo “Atrás da porta” na versão de Elis: “até provar quinda sou tua”. Dizer que era dele era mais fácil do que assumir que nunca fui mais do que o vira-lata sem dono e tinha que dar conta sozinha. Como na história da “Dama e o Vagabundo”, só que nunca fui a dama. Quiçá apenas uma forma de me iludir, achando que eu tinha lugar no mundo só pra me afastar de mim e escapar dos becos sem saída da minha vida emocional e aceitar que talvez eu realmente prefira a crueza da solidão sem disfarces do que o vazio das relações em tempos líquidos. Porque a verdade é que busco esses pseudo romances pra me livrar do excesso de sentir e depois vejo que aquilo que eu tento chamar de amor é só um capricho, uma teimosia em tentar amar sem máscaras.

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Desatino

Que espécie de amor é esse
que sem consentimento invade e fascina?
Que desassossega o corpo, que desespera e desatina?
Que espécie de saudade é essa
que corrói até a alma?
Que perturba onde nem se podia alcançar, que sufoca até não mais suportar?
Que espécie de desejo é esse
sem vergonha, sem controle, sem juízo?
Que ouriça os poros, que lambuza o íntimo, que quer possuir e ser possuído?

Cacos II

Porque quando eu estava ao seu lado o mundo poderia explodir que eu não me importaria. Porque quando estávamos juntos, de alguma maneira, até as coisas mais sem sentido pareciam tão certas. Mas assim, de um dia pro outro, quem explodiu fomos nós. Foi o amor que eu sentia que foi quebrado, dilacerado. Enquanto eu ainda tentava juntar os pedacinhos você jogava tudo fora.
“Meu coração ainda corre ao teu encontro com demasiada violência” – escreve aquele filósofo. Se eu pudesse ainda correria pra você. Mas, mais uma vez, a única coisa que eu faço é atender ao seu desejo: você decidiu que tinha que acabar. E você nega, mas você sabe.  As incompatibilidades nunca foram o problema. O problema foi a sua escolha. De não nos deixar acontecer. Você que um dia me pediu para tentar. Para viver a nossa história até as últimas consequências, de repente escolheu não vivê-la.

04:19

Outra madrugada. Deitada em posição fetal. Fecho os olhos mas o sono não vem. Meu único sonho é retornar ao útero. A saudade corrói como úlcera hemorrágica. Como um eterno regurgitar de sentimentos. Sinto tua falta como se tivesse me arrancado um órgão vital. Pareço bem, mas há falta em tudo que eu vivo. Todo ar não é o bastante para me fazer respirar. Toda multidão é solidão. Todos os homens do mundo ainda seriam insuficientes. Viver parece um pesadelo, como se todos os dias fossem 04:19 daquela quarta-feira, quando você me mandou embora, “me disse pra ser feliz e passar bem” como na canção do Chico.