Ausência

Mais uma noite. Sozinha. Acordo ansiosa. O corpo inteiro molhado de suor. E por afrontamento do desejo é por ele que minha pele clama. E as palavras que ele me dizia ainda são as únicas que me fazem falta. Me recordo que já faz mais de um ano desde aquele beijo. Sem palavras, só olhares. Vontade pura e simples. Quando nenhuma promessa de futuro me fazia falta…
Eu sei. Sei que esse amor não era lá grandes coisas. Sempre tive certeza que nosso prazo de validade era curto. Mas sei também que o meio amor que eu tinha valia mais para mim do que o melhor de amor de qualquer homem.
E eu posso dizer que era feliz com fragmentos dele. Até que cansei de brincar de puta.
É que eu até tento, mas chega uma hora que não sei mais ser pela metade. Porque para um amor inteiro metade não satisfaz. Ainda que seja a melhor parte. A mais saborosa. Chega um momento que, de tão faminta, acabo morrendo de fome.

Feridas

Reviro as gavetas e encontro. Aquela calcinha. Puxo sem dó e com violência rasgo um por um os fios da renda como se esse ato pudesse também arrancar do meu coração a tua presença que insiste em permanecer. Porque cansei de dormir e acordar dia após dia suportando essa dor ridícula como a de feridas profundas e infeccionadas, cheias de secreções e pus à flor da pele.
É que você não sabe, mas enquanto jorram essas palavras sinto cada dor, cada fisgada emocional como quem arranca espinho por espinho e deixa a pele em carne viva. O peito aperta a cada respiração e o estômago sangra e dói tanto quanto a alma. A cabeça revira e as veias dilatam cada vez que tento entender porque e ainda me questiono e suplico a não sei quem por uma resposta para algo que não consigo deixar pra lá como eles se conformaram a fazer. É que a minha maneira de amar é deturpada para os dias atuais. A mediocridade não tem espaço na minha vida. Eu ainda preciso de sentir mais do que simplesmente ligar o piloto automático e deixar acontecer.

Vício

Ando pelos mesmos lugares em que estivemos e sinto um aperto como se o ar de repente ficasse rarefeito. Como se eu precisasse de um cilindro de oxigênio ou enfiar dois dedos na garganta para vomitar. Para expurgar esse veneno que insiste em permanecer aqui dentro. É que meu corpo ainda é despudorado com o sentir e insiste em te desejar todos os dias.
Você sabe que eu poderia acordar cada dia na cama de um, sendo despida e desejada por outros tantos. Até melhores que você. Mas seria uma violência contra mim. Porque em toda parte só o que me sobra são resquícios desse amor. Ridículo. Barato. Irracional. Imoral.
E nessa tentativa de arrancar essa coisa nociva que queima, lateja e sufoca, esgoto todos os recursos: volto à terrível compulsão por açúcar. Que só me faz sentir enjoada e culpada. Me odeio por quase um segundo. Mas aprendi a perdoar certas fraquezas.
Ando pelas ruas da cidade como se procurasse algo, mas confesso que tenho medo de te encontrar por acaso. E ver que aquele olhar que me desmanchava já não é mais o mesmo.
Tomo um porre. Não bebo vinho, que meu fígado tolera bem, mas escolho a vingança perfeita: vodca. Só que meu corpo se recusa. E o resultado é só um dia inteiro jogada no chão do banheiro com uma enxaqueca implacável.
Digo que vou juntar dinheiro, que são tempos de crise, mas o cartão de crédito é usado constantemente. Compro calcinhas. Pretas porque ainda é minha cor preferida. Mas agora elas ficam guardadas na gaveta.
Consulto horóscopo – Sol e Lua em Capricórnio é tragédia consumada no amor – e jogo tarot na esperança de um sinal, uma resposta. Imploro a Deus. Ouço músicas. Blues, Jazz e MPB. Depois apelo para as cafonas. E nem mesmo os livros conseguem me tirar dessa.
Escrevo. Sinto que, pelo menos por um momento, posso respirar novamente, que as batidas do coração voltam à pulsação regular, que o sangue circula normalmente pelas veias. Pelo menos até que comece tudo outra vez.

Cafona

04:28 de terça-feira. As insônias se tornaram agora um martírio para quem passa noites inteiras sozinha, de um lado para outro da cama. Pele arrepiada, calafrios e a vontade única do teu abraço, do teu corpo aconchegado no meu. De estar enroscada nos braços que eu achei que nunca me largariam e hoje nem mais me abraçam. Das mãos que não mais me tocam. Daquele beijo que a minha boca nunca mais experimentou.
Passo dias anestesiada, em uma aparente calma que sei que não é minha. Logo eu, que ainda teimo em ser tão escancarada com o sentir. Que só sei fazer do amor um escândalo. Eu, que me coloquei inteira para você. E que expus meu coração sem nenhum pudor. E agora você me ataca tão ferozmente com o teu silêncio. Me atinge em cheio o peito aberto, minha alma já tão machucada.
“And now that you took that part/ that used to be my heart/ All of me, why not take all of me?/ Can’t you see I’m a mess without you?”, canta Sinatra ao fundo, zombando do meu desespero cafona – afinal para que se entregar tanto em tempos modernos? – enquanto eu entendo que talvez o amor não me seja possível. E que a mim só cabem mesmo as cicatrizes e a poesia.