Intravenosa

Sábado. Madrugada. Hospital. Emergência. Internação. Intravenosa.
Qualquer coisa pra me anestesiar até o último resquício de sentimento.
Abro os olhos quando o primeiro feixe de luz entra pela janela. Ainda estou no soro, meio fora de mim, mas pela primeira vez em 15 dias consigo dormir por mais de 3 horas sem acordar de sobressalto tentando entender esse silêncio que me atinge tal qual lâmina contaminada. Me rasga o peito, me corrói a alma, me dói até às vértebras.
Dois dias. Para ele, os melhores. Para mim, os piores. Enquanto ele segue em frente eu definho. Nada me mata mais do que quando se é covarde para amar. Nenhuma dor supera a de ser brutalmente ferida por sentir em demasia. Só queria ser Clementine em Brilho eterno de uma mente sem lembranças: “But I’m just a fucked-up girl who’s looking for my own peace of mind; don’t assign me yours”

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Desejo de mulher

Sou mulher. Sou fêmea. No cio. Sou sim. Desavergonhada. Despudorada. Devassa até os ossos; até o dedo mindinho; até o frizz dos cabelos. Mas só pelo amor. Pelo desejo do meu homem. Não é orgulho; eu confesso, eu grito: ainda é saudade, essa dor que me rasga o peito nas madrugadas. Mas, em algum momento, o peso desse amor ficou maior que a saudade.  Minhas palavras parecem já não tocar mais. A beleza é só mais um artifício que ele usa para me castigar. Pra me mostrar que sou só objeto de desejo passageiro; que sirvo pra cama, mas não para a sala de estar. Para mais uma vez, ter alguém pra entregar o coração de maneira tão leviana; alguém pra me apontar o dedo e provar que não me encaixo.

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Ainda pensas que não sei?

Mais uma noite. Ainda teimo em arrancar peles dos lábios e cascas de machucados. Tento evitar, mas uma única lágrima insiste em escorrer quando o telefone dá sinal. Sabia que era você. Solto os cabelos pra não sufocar. Deito no chão frio enquanto ainda vejo tua imagem e, pouco tempo depois, ouço tua voz. Pareces tão seguro. Será que ainda pensas que não sei das tuas inquietações; das tuas noites de insônia a rolar na cama? Pensas que não sei do teu orgulho, da tua teimosia? Da tua dificuldade em te mostrar? Inteiro, vulnerável. Pensas que não sei do teu medo de parecer frágil e dar errado mais uma vez? Pensas que não sei do teu receio de chegar perto demais e não ser mais capaz de te soltar? Pensas que não consigo ver muito além dessa armadura que ainda teimas em trajar? Pensas que não sei que só te afastas de mim por medo de ti mesmo?

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Na madrugada…

Já é domingo. O único dia da semana no qual se torna impossível fugir do amor. Talvez por isso meu inconsciente ainda teime em passar as madrugadas em claro. Pro dia começar mais tarde e durar menos. Penso em alugar um carro ou ir direto comprar uma passagem de ida no primeiro guichê da rodoviária pra forjar uma partida assim que o sol nascer. Uma cena qualquer pra chamar tua atenção. Qualquer outro tentaria me impedir de ir embora e me imploraria pra ficar. Desisto da ideia porque pela primeira vez não quero ir embora se não puder ir contigo. Ainda que aqui nada me segure talvez lá seja pior. Abro outra garrafa de vinho. Tento recorrer ao antigo clichê dos boêmios e românticos: “love is a dog from hell”, já dizia aquele velho safado. Como se eu pudesse ser tão óbvia e previsível. Tua falta só fica mais evidente ainda que eu esteja decidida a não tentar mais.

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