04:19

Outra madrugada. Deitada em posição fetal. Fecho os olhos mas o sono não vem. Meu único sonho é retornar ao útero. A saudade corrói como úlcera hemorrágica. Como um eterno regurgitar de sentimentos. Sinto tua falta como se tivesse me arrancado um órgão vital. Pareço bem, mas há falta em tudo que eu vivo. Todo ar não é o bastante para me fazer respirar. Toda multidão é solidão. Todos os homens do mundo ainda seriam insuficientes. Viver parece um pesadelo, como se todos os dias fossem 04:19 daquela quarta-feira, quando você me mandou embora, “me disse pra ser feliz e passar bem” como na canção do Chico.

 

Just over

Sentada no chão frio. Estática. Anestesiada. Não grito, não esperneio, não imploro. Mal consigo responder. Não faço nenhum esforço para levantar, para segurar ou ao menos enxugar as lágrimas que escorrem compulsivamente enquanto releio mais uma vez aquelas duras palavras que você me enviou. Nunca imaginei que pudesse me dizer palavras tão frias e sem esperança. E nunca antes um homem havia me deixado assim. Não dessa maneira, como se fosse tão fácil virar as costas e seguir seu caminho. Enquanto eu fico aqui. Sozinha. Ainda sem saber o que fazer. Como uma coisa qualquer que se joga fora depois que cansou de usar.

(In) decência

Ainda me pergunto como pôde me deixar assim. Será que não vê que, depois da sua partida, cada noite é uma tortura? Qualquer outro homem teria o mínimo de decência. Qualquer outro não me deixaria. Ou, pelo menos, me deixaria com mais cuidado. Me daria banho, enxugaria minhas lágrimas, me colocaria para dormir e me cobriria ternamente antes de sair pela porta. Mas depois que você chegou eu nunca mais me importei com outros homens. E tudo que você fez foi ir embora. Como quem sai na calada da noite pela porta dos fundos porque falta coragem para encarar. Para abrir a porta da frente. Para escancarar as verdades. Felizes aqueles que preferem desviar o olhar. Felizes aqueles que não se entregam. Felizes aqueles que sentem pouco. Eu não. Em mim tudo é excesso.

Cafona

04:28 de terça-feira. As insônias se tornaram agora um martírio para quem passa noites inteiras sozinha, de um lado para outro da cama. Pele arrepiada, calafrios e a vontade única do teu abraço, do teu corpo aconchegado no meu. De estar enroscada nos braços que eu achei que nunca me largariam e hoje nem mais me abraçam. Das mãos que não mais me tocam. Daquele beijo que a minha boca nunca mais experimentou.
Passo dias anestesiada, em uma aparente calma que sei que não é minha. Logo eu, que ainda teimo em ser tão escancarada com o sentir. Que só sei fazer do amor um escândalo. Eu, que me coloquei inteira para você. E que expus meu coração sem nenhum pudor. E agora você me ataca tão ferozmente com o teu silêncio. Me atinge em cheio o peito aberto, minha alma já tão machucada.
“And now that you took that part/ that used to be my heart/ All of me, why not take all of me?/ Can’t you see I’m a mess without you?”, canta Sinatra ao fundo, zombando do meu desespero cafona – afinal para que se entregar tanto em tempos modernos? – enquanto eu entendo que talvez o amor não me seja possível. E que a mim só cabem mesmo as cicatrizes e a poesia.