Sarcasmo

Perante a tua falta de vontade aquela saudade virou qualquer coisa, como que jogada no fundo da gaveta. A tua falta ainda incomoda, mas já não quero porque os restos desse amor não me convencem mais e essas lembranças só trazem algo de ridículo. Suas palavras já não me comovem. E de repente você parece ser só mais um. O desejo não passa de mais um capricho e meu corpo quer ser tocado por outras mãos que não as suas. O amor é sarcasmo. A minha fraqueza ainda é amar.

 

Tua

É que não entendo como pode me deixar sozinha por tanto tempo. Não vê o quanto tua falta ainda dói, machuca e me faz sangrar? E da última vez eu te pedi para não me fazer sofrer mais. Mas você faz pior. Me deixa sozinha, entregue à esta solidão inexorável quando eu mais preciso de tua presença. Porque sabe que por mais que eu queira me livrar desse amor – e eu ainda me atrevo a chamar “isto” de amor? – não vou me entregar para outro. Porque ser de outro seria ser ainda mais tua. Mas não vê que, mesmo ainda sendo o único dono do meu corpo, do meu desejo, minh’alma clama por liberdade? Por entrega e amor de verdade? Alguma coisa em mim me exige muito mais do que as migalhas que você se arrisca a me dar.

 

Ausência

Mais uma noite. Sozinha. Acordo ansiosa. O corpo inteiro molhado de suor. E por afrontamento do desejo é por ele que minha pele clama. E as palavras que ele me dizia ainda são as únicas que me fazem falta. Me recordo que já faz mais de um ano desde aquele beijo. Sem palavras, só olhares. Vontade pura e simples. Quando nenhuma promessa de futuro me fazia falta…
Eu sei. Sei que esse amor não era lá grandes coisas. Sempre tive certeza que nosso prazo de validade era curto. Mas sei também que o meio amor que eu tinha valia mais para mim do que o melhor de amor de qualquer homem.
E eu posso dizer que era feliz com fragmentos dele. Até que cansei de brincar de puta.
É que eu até tento, mas chega uma hora que não sei mais ser pela metade. Porque para um amor inteiro metade não satisfaz. Ainda que seja a melhor parte. A mais saborosa. Chega um momento que, de tão faminta, acabo morrendo de fome.

Raspas e restos

Raspas e Restos

Outro dia em uma das arrumações eu me deparei com uma caixinha verde. Por alguns segundos eu quis fingir que não tinha visto, porque embora fizesse muito tempo que eu não me preocupava com essa caixinha eu sabia exatamente o que tinha ali dentro.

E por um ímpeto a vontade de abrir a tal caixinha foi mais forte do que a vontade de deixá-la de lado. Sabe aquela coisa de querer encarar os fatos e deixar de vez o passado no seu lugar? Então eu abri. E olhei cada foto, lembrei de cada momento e me surpreendi ao ser pega por mim mesma com um leve sorriso no rosto.

Lembrei de momentos que foram nossos. De intimidades e brincadeiras. De “M.D.C” e “Exagerado”*. De declarações e sentimentos. De cheiros, beijos e abraços. De planos e sonhos.

No meio de tantas lembranças lembrei de mágoas e inseguranças. De decepções e tristezas. E da sensação exata de achar que um dia podia dar certo e depois da certeza de saber que precisava acabar. Mesmo com tanta intensidade. Mesmo querendo continuar.

E no final eu me senti feliz. Feliz e Aliviada. Aliviada porque o amor foi embora, mas as mágoas que um dia existiram foram juntas. E nesse dia eu desejei de verdade que você estivesse feliz. Desejei que a vida tivesse sido gentil com você e que seus sonhos tivessem se realizado.

E me senti feliz por ter vivido a nossa história. E ainda mais feliz por constatar que nem sempre o casal precisa terminar junto para o final ser feliz. Porque a vida não é feita de uma história só. E às vezes o amor termina assim: raspas e restos guardados dentro de uma caixinha de fotos.

*Músicas de Raul Seixas e Cazuza, respectivamente.