Desatino

Que espécie de amor é esse
que sem consentimento invade e fascina?
Que desassossega o corpo, que desespera e desatina?
Que espécie de saudade é essa
que corrói até a alma?
Que perturba onde nem se podia alcançar, que sufoca até não mais suportar?
Que espécie de desejo é esse
sem vergonha, sem controle, sem juízo?
Que ouriça os poros, que lambuza o íntimo, que quer possuir e ser possuído?

(In) decência

Ainda me pergunto como pôde me deixar assim. Será que não vê que, depois da sua partida, cada noite é uma tortura? Qualquer outro homem teria o mínimo de decência. Qualquer outro não me deixaria. Ou, pelo menos, me deixaria com mais cuidado. Me daria banho, enxugaria minhas lágrimas, me colocaria para dormir e me cobriria ternamente antes de sair pela porta. Mas depois que você chegou eu nunca mais me importei com outros homens. E tudo que você fez foi ir embora. Como quem sai na calada da noite pela porta dos fundos porque falta coragem para encarar. Para abrir a porta da frente. Para escancarar as verdades. Felizes aqueles que preferem desviar o olhar. Felizes aqueles que não se entregam. Felizes aqueles que sentem pouco. Eu não. Em mim tudo é excesso.

Nude

É que para entrar em meus segredos não basta que eu tire lentamente cada peça de roupa olhando nos olhos dele porque minha nudez não está no corpo. Vem da alma. Das palavras traçadas em versos livres. Porque estar nua em corpo é quase espontâneo e despir-se da “moral e dos bons costumes” ainda é mais fácil do que livrar-se de armaduras internas. De defesas preservadas por longos anos e de neuroses castigadas pela dureza da vida. Mas sé é para ser mulher que seja assim: inteira, verdadeira. Que minha feminilidade seja vivida até o limite. Entregue ao meu desejo e tomada pelo fervor do homem que escolhi. E ainda assim, se Nelson Rodrigues dizia que “toda nudez será castigada” meu castigo vem do sentir demais. De corpo e alma. E de tudo mais que vier.